Ajustamento económico para principiantes

Uma das expressões mais utilizadas recentemente na discussão económica é “ajustamento”. Compreensivelmente, para muitos (principalmente não economistas, mas também alguns economistas), a expressão gerou alguma confusão. Para alguns tornou-se sinónimo de austeridade ou um eufemismo para desemprego e recessão. A maior parte nunca chegou a perceber o que é o ajustamento, porque é que é necessário, e porque causa efeitos negativos no curto prazo. Para ajudar a entender o que é exactamente um ajustamento económico, recorro neste post a um exemplo simples (um pedido de desculpas antecipado aos leitores com maior sofisticação nesta área do conhecimento).

Momento 1: a necessidade do ajustamento
Imaginemos uma empresa de produção de sapatos, em cuja fábrica cada trabalhador produz um par de sapatos por hora. Os gestores da empresa apercebem-se de que com este nível de produtividade não sobreviverão muito tempo. Não só a produtividade é baixa como a fábrica oferece poucas perspectivas de permitir que a produtividade dos trabalhadores aumente. Resolvem então transferir os trabalhadores para uma nova fábrica, onde conseguirão produzir 2 pares de sapatos por hora. A decisão de fazer a transferência parece óbvia: a empresa que actualmente produz 50 pares de sapatos por hora, passará a produzir 100 pares de sapatos, podendo pagar mais aos trabalhadores e accionistas.

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Esta transferência é o equivalente ao ajustamento económico da economia, ou seja, a passagem de recursos (trabalhadores, capital, conhecimento) de áreas com fraca produtividade para áreas de maior valor acrescentado. Em Portugal isso corresponde a transferir recursos da função pública, de obras públicas como estádios e SCUTS para a indústria exportadora.

Momento 2: A queda do produto e do emprego
Pese embora a necessidade evidente de fazer o ajustamento, os gestores da empresa cedo se apercebem que esse ajustamento não vem sem custos. As duas fábricas são distantes uma da outra e enquanto os trabalhadores se deslocam de uma fábrica para outra não estão a produzir em nenhuma. De facto, o príncípio do ajustamento é marcado por uma queda de produção e do número de trabalhadores activos.

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Na economia real, este percurso entre as duas fábricas corresponde ao tempo e esforço necessário para transferir recursos de um sector para outro. Muitas vezes a transferência de recursos não é fácil (difícil transformar restaurantes em fábricas de chips) ou não existem incentivos para tal (pessoas com direito a longos períodos de subsídio de desemprego não sentem a pressão para procurar novo emprego)

Momento 3: O pico da crise
Quando a transferência de trabalhadores (o ajustamento) se encontra naquele momento em que já muitos trabalhadores percorrrem o caminho entre as duas fábricas, mas nenhum ainda chegou à segunda fábrica, a produção e o número de trabalhadores activos atinge o fundo. Um gestor menos experiente, ou menos inteligente, poderia pensar nesta altura que a decisão de transferir trabalhadores foi um erro, tal o efeito negativo que, até àquele momento, teve no emprego e na produção.

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Em política, este é o momento em que as vozes anti-ajustamento mais se fazem sentir. O facto de o produto e o emprego terem caído desde o início do ajustamento parece provar o seu argumento de que o ajustamento (a austeridade) não está a funcionar.

Momento 4: os primeiros frutos
Quando os primeiros trabalhadores começam a chegar à segunda fábrica, a produção começa a subir novamente. O número de trabalhadores activos mantém-se semelhante, já que continuam a sair trabalhadores da primeira fábrica, mas os ganhos na produção começam a verificar-se à medida que os primeiros trabalhadores a sair da antiga fábrica chegam à nova.

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Na economia real, este é um fenómeno comum nos ajustamentos: primeiro cresce o produto e só depois o emprego. É normalmente nesta altura que os políticos mais à esquerda se queixam de que, apesar da economia estar a crescer, esse crescimento não resulta em criação de emprego

Momento 5: as eleições
Apesar de o produto ter começado a aumentar, os gestores são chamados pelos accionistas da empresa, surpreendido por estarem tantos trabalhadores inactivos. Os gestores explicam que existam muitos trabalhadores inactivos devido à transferência entre fábricas. Os accionistas, que percebem pouco do negócio, pedem aos gestores que parem a transferência, afinal “é um desperdícios ter trabalhadores a caminhar quando podem estar na fábrica antiga a produzir”, caso contrário procurarão outros gestores. Os gestores fazem a vontade aos accionistas.

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Na economia real, esta é a altura em que os políticos receiam o efeito que o desemprego causado pelo ajustamento pode ter no seu sucesso eleitoral, preferindo interromper as medidas de ajustamento económico. No caso português, esta travagem aconteceu também devido à intervenção do Tribunal Constitucional

Momento 6: o “sucesso” depois da travagem
Após a paragem da transferência de trabalhadores, a produção aumenta como nunca antes. Tal acontece porque deixa de haver trabalhadores a abandonar a velha fábrica, mas os trabalhadores que já iam a caminho continuam a chegar à nova fábrica. Da mesma forma, o número de trabalhadores activos aumenta. Os accionistas vêem nesta evolução a confirmação da sua tese de que foi boa ideia parar a transferência de trabalhadores. Alguns gestores menos experientes ficarão também a pensar que, de facto, parar a transferência foi uma boa ideia.

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Com as devidas limitações no paralelo, esta é uma situação semelhante ao que iremos presenciar em Portugal em 2014 (e parcialmente já assitimos em 2013). O ajustamento realizado em 2011-2012 continua a dar resultados, e a travagem do ajustamento imposta pelo tribunal constitucional em 2013 poupa o país às dores de curto prazo. Com o ajustamento de 2011-12 a dar frutos e sem as dores de um ajustamento actual, a economia e o emprego recuperarão. Alguns vêem nesta situação a prova de que o ajustamento nunca deveria ter sido feito. Erradamente.

Momento 7: o fim do ajustamento
Quando todos os trabalhadores que já se encontravam a caminho da sua fábrica lá chegam, os benefícios da transferência esgotam-se. O aumento de produção pára nos 70 sapatos por hora, longe dos 100 sapatos por hora que teriam sido atingidos se o ajustamento não tivesse sido travado. Em breve, 70 sapatos por hora não serão suficientes e uma nova transferência de trabalhadores será necessária, com o consequente aumento de desemprego e queda na produção.

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A falácia da dívida pública

Uma das 3 pessoas que faz o sacrifício de ouvir o comentário de Sócrates aos Domingos na RTP, tratou de informar as redes sociais que o antigo primeiro-ministro se queixou ontem do aumento da dívida pública nos anos do governo PSD-CDS. Os números, de facto, não enganam, como podem ver no gráfico abaixo:

Evolução da dívida pública (mil milhões de Euros) e em % do PIB (%)

Divida Fonte: Pordata, Banco de Portugal

A tendência desde o último ano completo de governação Sócrates é de facto assustadora: subiu 53 mil milhões de euros, qualquer coisa como 35% do PIB em apenas 3 anos. Excepcionalmente, Sócrates diz a verdade. Se quisesse levar a retórica mais longe, até poderia dizer que se acumulou tanta dívida pública desde que ele deixou o governo como no total dos seus mandatos.

Claro que é de esperar que a dívida suba enquanto existirem défices públicos. Comentadores como José Sócrates que defendem metas mais fléxiveis para o défice dificilmente se poderão queixar que a dívida pública aumenta. Não podem defender ao mesmo tempo que haja défices mais altos e depois criticar que a dívida pública resultante desses défices aumente. A dívida pública é isso mesmo: o resultado da acumulação de défices. Mas será mesmo assim? Para analisar a veracidade desta relação económica, podemos observar abaixo a evolução do défice das contas pública e o crescimento da dívida pública.

Evolução do défice das contas públicas e crescimento da dívida pública (mil milhões de Euros)

DividaedeficeFonte: Pordata, Banco de Portugal

A relação efectivamente mantém-se. Na maior parte dos anos a dívida pública aumenta no mesmo montante do défice público com umas pequenas diferenças, os chamados ajustamentos défice-dívida. Estes ajustamento são quase sempre bastante pequenos, mas há uma notável excepção: os anos imediatamente a seguir à saída de Sócrates. Nesses anos, a dívida pública aumentou bastante mais do que o défice das contas pública levaria a pensar. Isto deveu-se a 3 factores:

  1. O salvamento dos bancos, algo que qualquer governo no actual panorama partidário teria feito. A alternativa a esta medida seria os depositantes de alguns bancos menos sólidos (BCP, BANIF,…) terem ficado sem parte dos seus depósitos, como em Chipre.
  2. A variação nas reservas de segurança do estado. Parte da dívida contraída refere-se a um aumento de reservas do Estado, ou seja dinheiro não alocado a despesa que fica em depósitos garantindo uma almofada caso falhe crédito. Foi esta a almofada que faltou em Maio de 2011 e que empurrou Sócrates para o pedido de ajuda antes das eleições, sob o risco de o país falhar o pagamento de salários e pensões nos meses seguintes.
  3. Finalmente, o pagamento das dívidas a fornecedores. Como a dívida a fornecedores não entra para os cálculo de dívida pública, uma forma fácil de um governo esconder a dívida pública é faltando ou atrasando o pagamento aos seus fornecedores. Esta dívida era bastante elevada quando Sócrates deixou o governo, particularmente na saúde. O pagamento dessa dívida pelo actual governo também contribuiu para um aumento da dívida pública.

Ou seja, grande parte da dívida pública foi para salvar um sistema bancário deixado de rastos pelas políticas económicas, para repôr as reservas de dinheiro que o governo Sócrates depletou até não haver suficiente para pagar salários e reformas, e para pagar os calotes deixados por esse mesmo governo, nomeadamente no sector da saúde.

Podemos ainda apontar o facto de que mesmo uma parte do défice actual se deve aos pagamentos das PPPs assinadas por Sócrates, outra forma de disfarçar dívida e défices passados. Antes das PPPs, um governo que construisse uma auto-estrada teria que contar com essa despesa no orçamento do ano em que a auto-estrada fosse construida, aumentando o défice. Utilizando uma PPP, um governo pode construir uma auto-estrada sem qualquer impacto no défice, empurrando esse custo e respectivos juros para os governos seguintes.

Sócrates tem razão quando diz que a dívida subiu bastante imediatamente após a sua saída do governo. Mas não deve esquecer que esta é, maioritariamente, a sua dívida. A dívida que Sócrates escondeu através das PPPs, dos calotes a fornecedores, do esvaziamento das reservas de segurança do estado que quase deixaram o país sem capacidade de pagar salários e pensões, e do caos em que as políticas do seu governo deixaram o sistema bancário.

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As más boas notícias do ajustamento

O que é um ajustamento? Em termos muito simples, um ajustamento económico consiste na transferência de recursos (trabalho e capital) de sectores menos produtivos para sectores mais produtivos da economia. Ajustamentos tornam-se necessários quando há alguma alteração externa à economia ou, como é o caso português, quando existe uma distorção prolongada. Crescimento económico fraco, abaixo da média de países comparáveis é o maior indicador de necessidades de ajustamentos económicos.

Os ajustamentos económicos têm efeitos diferentes no curto e médio prazo. No curto prazo tendem a causar quedas do produto e do emprego. Isto acontece porque o primeiro passo na transferência de recursos do sector A para o sector B é retirá-los ao sector A. No espaço de tempo que leva a transferir esses recursos para o sector B, o produto e o emprego diminui porque os recursos não produzem riqueza em nenhum dos sectores. Para entender melhor esta ideia, pensemos no caso de uma empresa com duas fábricas: A e B. Se o empresário descobrir que os trabalhadores produzem mais em B do que em A, faz sentido transferir trabalhadores de A para B. No entanto, no período que decorre entre a saída dos trabalhadores da fábrica A e a sua entrada na fábrica B, não estão a produzir em nenhuma delas. É este o efeito de curto prazo de um ajustamento económico: enquanto os recursos produtivos (trabalhadores e capital) estão em processo de transferência, o PIB cai e o desemprego aumenta. O facto de tal acontecer no curto prazo não significa que a transferência de recursos seja má ideia. Pelo contrário, a queda do PIB e aumento do desemprego é um indicador de que a transferência necessária está a ocorrer.

O ajustamento português começou em 2011, atingiu o seu pico em 2012 e abrandou em 2013 devido às decisões do Tribunal Constitucional. As escassas boas notícias na economia que apareceram em 2013 dever-se-ão precisamente ao facto de ajustamento ter abrandado. Por um lado, o país beneficiou em 2013 dos impactos de médio prazo do ajustamento iniciado em 2011-12 e, por outro, o abrandar do ajustamento em 2013 suavizou os impactos negativos de curto prazo que se teriam sentido no mesmo ano. Em 2014, que poderá ser o primeiro ano com crescimento económico positivo, poderemos ver um efeito semelhante. O impacto positivo dos ajustamentos de 2011-12 já se sentirão em pleno e o abrandamento de 2013-14 fará reduzir o impacto negativo de curto prazo.

Para além dos efeitos acima referidos, a economia portuguesa também beneficiará em 2014, assim como em 2013, de uma conjuntura internacional positiva. Mas com um ajustamento incompleto e eleições à porta a travar qualquer avanço nesse ajustamento, o país fica novamente vulnerável a qualquer terramoto internacional. Nesse caso, a perspectiva actual de crescimento económico em 2014 pode ser um presente envenado para o país, semelhante ao fantástico crescimento de 2010, que apenas empurrou as dores do ajustamento para os anos seguintes.

Moeda de mercado e anti-mercado

O mercado é dos fenómenos mais fascinantes e menos bem compreendidos. É um sistema através no qual a procura e oferta de bens, serviços, capital e trabalho se encontram, sem qualquer tipo de planeamento central. Mais fascinante ainda é o facto de o mercado ter o potencial para se adaptar rapidamente a alterações de preferências, técnicas de produção, avanços tecnológicos, catástrofes naturais, acordos comerciais, evoluções demográficas, etc
No centro de tudo isto está o mecanismo de preços. É através do mecanismo de preços que os diferentes agentes de mercado (produtores, consumidores, empresários, trabalhadores, investidores, aforradores) trocam informações que levam a que uns produzem o que outros desejam consumir. Milhões de preços relativos (preços de bens e serviços, salários, rendimentos de capital, etc) alteram-se a todo o momento para guiar consumidores e empresários nas suas decisões de consumo, produção, trabalho, lazer e poupança. Quanto mais oleado e fléxivel for este sistema de preços, mais depressa o mercado se ajusta a novas realidades e maior será o crescimento económico. Não é por acaso que fixação de preços em economias de planeamento central, ou mistas, resulta em défices (lembremo-nos das filas de pão na URSS) ou excedentes (energias renováveis na UE) de produção em relação ao consumo. Numa economia de mercado com preços fléxiveis, se a procura por um bem aumenta, o seu preço tenderá a aumentar, o que aumentará a produtividade de quem produz esse bem e o respectivo rendimento (salário e retorno de capital). Esse aumento de salário levará a que mais pessoas queiram produzir esse bem trazendo mais capital e trabalhadores para a sua produção, aumentando-a, respondendo assim ao aumento da procura. O contrário também deveria acontecer.
A necessária flexibilidade de preços implica que alguns preços tenham que subir em relação aos outros e outros, necessariamente, tenham que descer. Um dos grades obstáculos à flexibilidade no mecanismo de preços é a inflexibilidade no que toca a descidas nominais. A literatura de Economia Comportamental contém várias explicações para esta inflexibilidade a um nível psicológico, que não vale a pena explicar aqui. Os enquadramentos legais de vários países, incluindo o de Portugal, também oferecem resistência à flexibilidade nominal no sistema de preços, particularmente no que toca a salários, despesa pública e contratos comerciais. A dificuldade em ajustar preços relativos atrasa o crescimento económico, podendo mesmo levar à estagnação económica, fruto da manutenção de actividades pouco produtivas e não libertação de recursos para actividades mais produtivas. Perante esta realidade, como se pode aumentar a flexibilidade no sistema de preços que permite ajustamentos na produção e consumo que leve ao crescimento económico? Através do crescimento artificial do nível geral de preços, ou seja, da inflação. Um nível moderado e previsível de inflação é o garante de uma maior flexibilidade no sistema de preços, possibilitando descida em termos reais, onde descidas nominais são complicadas de atingir. A inflação determina o nível mais baixo do intervalo em que os preços podem variar. Com inflação zero, o nível salarial pode variar entre 0 e infinito. Com inflação de 3%, o nível salarial real pode variar entre -3% e infinito. Esta flexibilidade adicional pode ter um papel chave no mecanismo de mercado que conduz à prosperidade económica.
Uma moeda que permite um nível moderado e previsível de inflação, pode facilitar a acção do mecanismo de preços (incluindo salários) e os ajustamentos económicos que sejam necessários em qualquer altura. Pelo contrário, uma moeda anti-inflacionária aliada à realidade da inflexibilidade nominal, dificultará sempre a acção do mecanismo de preços, ou seja, do mercado. Uma moeda que não desvalorize, é uma moeda anti-mercado.
Evidentemente, existem riscos com a desvalorização monetária. O maior de todos é o de que, dado o poder de desvalorização monetária aos estados, este seja abusado e que, em vez de uma desvalorização lenta e previsível, se acabe com uma desvalorização rápida e destrutiva. Foi esse o caso da maioria das moedas fiduciárias (que não o dólar, que se desvalorizou em média 3,5% por ano durante 100 anos de existência). Outro dos riscos prende-se com o mecanismo de expansão monetária, hoje realizada através do crédito, que favorece a criação de bolhas de activos e permite a criação de rendas no sector financeiro. Equilibrar os benefícios listados acima com estes custos é complicado, mas ignorar tanto uns como outros faz ainda pouco sentido. Um mecanismo automático e previsível de expansão monetária, inscrito na constituição e recorrendo a outro mecanismo que não o crédito, poderia resolver alguns destes problemas.

Inflexibilidade nominal

Exemplo 1:
Tribunal Constitucional rejeita descidas de 10% nas pensões na crise de 2010-13, via queda nominal
Tribunal Constitucional não impede descidas nas pensões superiores a 40% na crise de 1981-83, via inflação, permitindo um ajuste mais rápido da economia

Exemplo 2:
Descida dos salários da função pública entre 2010 e 2013 em termos reais devido a:
Descidas nominais aceites politicamente: 5%
Descida via inflação: 7,4%

Exemplo 3:
Evolução real do salário mínimo:
2010-13: -5%, via inflação, incluindo aumentos nominais.
1981-84: -32% via inflação, incluindo aumentos nominais.

Exemplo 4:
Pequeno accionista recusa-se a vender as acções de uma empresa até que o preço volte a atingir o mesmo nível de quando as comprou. Questionado sobre se compraria acções da mesma empresa se não as tivesse, mas possuísse o seu valor actual em dinheiro, responde que não.

Exemplo 5:
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Exemplo 6:
Perante quedas reais de produtividade, empresas encontram menor conflitualidade laboral mantendo salários nominais em ambiente inflacionário do que baixá-los nominalmente em ambiente deflacionário, independentemente do resultado final em termos de poder de compra para o trabalhador

PISA: separar o bebé da água do banho

Não sendo um especialista em educação, há algo que me fascina na evolução dos resultados nos testes de PISA dos alunos portugueses. Atentemos em baixo à forma como evoluiram os resultados dos alunos portugueses nas três disciplinas consideradas:

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O que fica deste gráfico é que toda a evolução nos resultados foi indiferenciada e se concentrou em num período apenas: entre 2006 a 2009. Não existiu uma melhoria progressiva ou concentrada numa ou noutra disciplina, como seria de esperar de uma alteração de programas. Pelo contrário, nesse período de tempo os resultados melhoraram em todas as disciplinas, ao mesmo tempo e em proporções muito semelhantes. Para quem por motivos profissionais esteja habituado a analisar séries temporais, a primeira ideia que surge ao observar uma evolução deste género é a de uma alteração no processo de amostragem. Uma alteração do processo de amostragem criaria uma evolução com todos os ingredientes desta: one-off, concentrada no tempo e indiscriminada entre as diferentes séries. No entanto, não havendo nenhuma indicação nesse sentido, resta-me concluir por uma segunda alternativas: algo aconteceu entre 2006 e 2009 no sistema educativo português como um todo que levou a esta melhoria multi-disciplinar e concentrada no tempo. Apesar de toda a discussão em volta destes números, ainda ninguém conseguiu identificar de forma satisfatória exactamente o que aconteceu nesse curto período de tempo e que justificou uma subida repentina nos resultados.

Para aqueles que utilizam estes resultados como uma forma de validar o “Eduquês”, fica sempre a questão de perceber porque é que o “Eduquês”, estando já há vários anos entranhado no sistema de ensino português, não teve resultados antes de 2006. Curiosamente o livro de Nuno Crato, “O Eduquês em discurso directo” foi lançado precisamente em 2006, criticando anos de uma política de educação que, até aquela altura, tinha mantido o resultado dos alunos portugueses bem abaixo da média da OCDE. Por isto também é importante entender o que se passou entre 2006 e 2009 e que contribuiu para a melhoria do resultados dos exames: aprofundámos ou afastamo-nos do modelo do Eduquês? Importante perceber para garantirmos que não mantemos a água suja do banho, apenas porque o bebé lá está dentro.

O peixe, os velhos e o pau

howaneconomygrowsandwhyitcrashesEra uma vez uma ilha em que os habitantes sobreviviam de pesca artesanal. Os habitantes passavam o dia a pescar à mão e a usufruir dos frutos desse trabalho. Aquilo que pescavam diariamente chegava para satisfazer as necessidades da sua dieta. Os anos foram passando e os habitantes continuavam na sua rotina habitual até que um dia um deles se apercebeu que estava a envelhecer e que daí a uns anos será incapaz de pescar tanto como pesca hoje. Decidiu reunir todos os habitantes e apresentar-lhes o problema. Após pensar por um minuto, um dos habitantes sugeriu uma solução: solidariedade inter-geracional. A sua proposta era que, à medida que os habitantes fossem chegando à idade em que já não conseguiam pescar, os habitantes mais novos abdicassem de parte do seu peixe para alimentar os mais velhos. Mais tarde, quando esses também envelhecessem fariam o mesmo com as novas gerações e por aí fora. Como existiria sempre uma nova geração, haveria sempre peixe para distribuir. Parecia uma boa ideia Nessa altura surgiu a pergunta: “Mas então, como garantimos que os mais novos contribuem para alimentar os mais velhos?”. A solução encontrada foi a de construir um enorme pau que ficaria nas mão de um habitante eleito pelos restantes. Se um dos mais novos não quisesse contribuir, levava uma paulada. Parece justo, pensaram. A solução funcionou durante bastante tempo: a população da ilha era jovem e os poucos que foram envelhecendo tiravam muito pouco dos mais jovens. Os mais jovens, não tendo que contribuir muito, e na expectativa de virem a beneficiar do sistema quando fossem mais velhos, não se importavam de contribuir. Porém, com o passar do tempo, passou a haver cada vez mais velhos, o que exigiu uma contribuição cada vez maior dos habitantes mais novos. A certa altura, a contribuição passou a ser tão alta que os mais jovens deixaram de ter peixe suficiente para se alimentar. Alguns tentaram deixar de contribuir, mas levaram com o pau. Depois de algumas pauladas, outros decidiram fugir da ilha, deixando o esforço ser distribuido por ainda menos trabalhadores, aumentando a fome e a paulada, fazendo com que mais fugissem da ilha.

Esses habitantes fugiam para uma ilha vizinha. Essa ilha vizinha tinha passado exactamente pelo mesmo problema inicial: os habitantes aperceberam-se que estavam a envelhecer e que em breve alguns deles deixariam de ter forças para pescar o suficiente para se alimentarem. Seguiram porém uma solução diferente. Em vez de assumirem que os mais novos iriam abdicar de peixe no futuro para alimentar os mais velhos, começaram logo a abdicar de peixe no presente. Deixaram de passar o dia todo a pescar, passando algumas horas do dia a construir redes de pesca. No curto prazo teriam menos peixe disponível por passarem menos tempo a pescar, mas no longo prazo conseguiriam pescar mais com as redes que fossem construindo. À medida que fossem envelhecendo, os pescadores perdiam a capacidade de pescar à mão, mas como tinham cosnstruído redes, conseguiam pescar o mesmo ou até mais. Quando chegassem a uma idade avançada em que não tivessem mais forças para pescar alugariam as suas redes aos mais jovens, com mais força, mas que ainda não tinham tido tempo para construir redes. Esses mais jovens beneficiavam do facto de poderem pescar mais recorrendo às redes dos mais velhos, e partilhavam esse benefício, dando parte do excedente aos mais velhos. Quando colocados perante a possibilidade dos mais jovens simplesmente roubarem as redes e não darem nenhum peixe aos mais velhos, decidiram também eles criar um enorme pau que ficaria nas mão de um do habitante eleito, mas cuja função seria simplesmente garantir que o roubo não ocorresse. Tal como na primeira ilha, também esta passou por fases de declínio demográfico em que a população mais velha ultrapassava em número a mais nova. Mas ao contrário da primeira ilha, esta situação não provocou fome: mais velhos significava também um maior stock de redes, o que tornava os trabalhadores novos mais produtivos. Quando existia um baby boom, e a população mais nova crescia, cada um dos trablhadores tinha acesso a menos redes, mas como também havia mais trabalhadores, os mais velhos continuavam a ter acesso a alimentação. Em suma, nesta ilha tinham construido um sistema resitente a variações demográficas. Nesta ilha produzia-se também bastante mais peixe do que na ilha vizinha, graças ao stock de redes existente. E o pau era também usado menos vezes.

(história baseada no livro “How an economy grows and why it crashes”, de Peter Schiff, que recomendo vivamente, e de onde também retirei a ilustração.)