E amanhã?


É hoje. Hoje, tudo indica, será aprovado o orçamento com o maior aumento de carga fiscal de sempre. Perante a necessidade de consolidação orçamental e do bloqueio constitucional a cortes de despesa transversais, não houve o esforço e a coragem política para fazer cortes de despesas específicas. Este esbulho fiscal acontece apesar da retórica anti-impostos de alguns membros da coligação e de nunca ter havido um momento politicamente tão propenso ao corte de despesa pública como o presente. A maioria parlamentar, confrontado com a própria inércia e a falta de coragem para cortar o rendimento de quem vive à mesa do orçamento, resolveu mais uma vez cortar o rendimento das famílias. Em 2013 continuará a haver políticos com reformas chorudas, milhares de empresas a viver à sombra do estado e um conjunto de organismos públicos cuja única utilidade é garantir benefícios a quem neles trabalha, mas para algumas famílias este aumento de impostos será o empurrão final para que percam a casa, para que tenham que mudar a escola dos filhos, para que reduzam a qualidade da alimentação e para abandonarem o país. Tudo isto porque os grupos de pressão levaram, mais uma vez, a melhor sobre os contribuintes e as famílias.

Dezasseis anos de governação quase ininterrupta do Partido Socialista tiveram o benefício de fazer aparecer uma leve corrente liberal na internet, na imprensa mainstream e, finalmente, nos partidos à direita do PS. O liberalismo não é uma ideologia de governo, mas a verdade é que ter liberais nos partidos de poder poderia e deveria fazer alguma diferença. Alguns daqueles que fizeram parte ou foram influenciados por esta corrente acabaram por se colocar ao lado desta coligação governamental, emprestando-lhe o rótulo de liberal. Passo a passo, estes elementos foram validando este caminho para o abismo socialista sob a sigla do pragmatismo e da necessidade de consenso, que é outra forma de admitir incapacidade e falta de coragem. Este governo “liberal” não só não obrigou o estado gordo a uma dieta como ainda forçou o Etíope escanzelado que é hoje o sector privado a amputar mais uma perna para o alimentar.

Daqui a um ano, talvez dois, o governo irá cair e virá o PS (com ou sem bloco de esquerda) substitui-lo. Nessa altura, o que dirão políticos e comentadores que um dia se assumiram liberais? Que moral terão para defender a diminuição do peso do estado depois de não o terem feito quando mais era necessário e existiam as melhores condições políticas para o fazerem? Com que cara irá alguém como Carlos Abreu Amorim queixar-se do quão difícil é ser liberal em Portugal, se quando teve a oportunidade de lutar, decidiu ceder às forças mais conservadoras e estatistas do país? Como é que um apoiante do CDS conseguirá dizer sem se rir que apoia o partido dos contribuintes depois de aprovarem este OE? Se estas contradições eram fáceis no passado com um povo de memória curta e uma imprensa centralizada e domesticada, dificilmente se-lo-à no tempo das redes sociais. Não faltará quem lembre o que fizeram neste dia e as consequências para o país e para a liberdade individual que certamente advirão desta escolha.

Hoje será aprovado o orçamento com o maior aumento de carga fiscal de sempre em Portugal, apoiado por muitos antigos defensores do liberalismo. A credibilidade da jovem corrente liberal levará hoje uma das suas maiores machadas de sempre. E amanhã? Amanhã, começa tudo outra vez.

12 comentários a “E amanhã?

  1. Pois. É triste mesmo. A solução está num liberalismo social. Mas temos um governo que lá chegou para implementar esse tipo de políticas e faz o inverso (mais impostos e mais Estado). E temos um impasse pois a opinião pública “acha” que “estas” são as políticas liberais… Pelo que estamos a “queimar” a possibilidade de implementar essas soluções e o que aí virá depois (como refere) será mais do mal que nos trouxe à situação actual.

  2. É um prazer vê-lo de volta, Carlos. Ainda por cima num dia apropriado.
    É bom que sejamos suficientes para lembrar a esses canalhas que nós temos memória.
    E não vamos esquecer.

  3. Esta sua nova casa será um dos meus locais de visita quando, pela manhã, faço a round pelos poucos “locais obrigatórios”.
    Votos de boas prosas por cá,

    Miguel A. Baptista

  4. Mais do que o confronto “esquerda” vs “direita”, “liberais” vs “progressistas” ou “liberais” vs “conservadores”, as mudanças a implementar no País não avançam pois ameaçam o establishment da capital…

    O verdadeiro travão às reformas não é ideológico, chama-se centralismo.
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/

  5. Questione não o que fazem os partidos dentro do sistema político, mas se o próprio sistema político em vigor permite uma mudança.
    Os partidos fazem de acordo com o seu financiamento, e neste caso de acordo com o financiamento à sua facção dentro do mesmo partido. O interesse geral vem muito abaixo na lista de prioridades.
    Para além disso, há a suspeita de gestão de calendário político: fazer rijo agora para amaciar mais tarde quando se aproximarem as eleições. Se assim é, parece mesmo caso para julgamento por traição à pátria.
    Como vamos alterar o actual sistema? Este não funciona.

  6. Fico contente por verificar que o tivemos longe por pouco tempo. Por favor, não deixe de divulgar as suas opiniões e continue a fazê-lo da maneira fundamentada e pedagógica como o tem feito.

    • É curioso ver como o mundo ocidental, com alguns governos apelidados de liberais, tal como o nosso, nunca estiveram tão perto do “caminho para o socialismo”, como agora.
      Sem ser intencional ou não, aí temos a colectivizarão da propriedade individual, dos meios de producção individuais de cada um a favor de um suposto colectivo – ” O Estado”, esse monstro abstracto e que apesar de falido continuar a trucidar tudo e todos.

      O mundo dá mesmo muitas voltas.
      O que parecia impossível, vai-se, a pouco e pouco tornando uma realidade incrédula.

      O futuro do capitalismo parece estar nas antigas sociedades socialistas e o futuro do socialismo nas anteriores capitalistas.

      É curioso o poder da dialéctica.

  7. Pingback: OE « mixdisse

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