O que é que o Estado Social verdadeiramente fez por si?

Uma das grandes mentiras mil vezes repetida pela esquerda, que o Daniel Oliveira insiste aqui, é o de que o progresso nas condições sociais desde a revolução do 25 de Abril se deve à luta política. Segundo esta teoria, Portugal antes de 1974 só não tinha o nível de alfabetismo e a cobertura de cuidados de saúde que tem hoje por falta de vontade política. É um erro comum e conveniente de atribuir ao Estado Social os créditos do progresso económico.
Obviamente, a verdadeira razão pela qual Portugal não tinha em 1974 os níveis de literacia e a abrangência de cuidados de saúde actuais é o mesmo motivo para o Mali e a Coreia do Norte não o conseguirem fazer hoje: não tinha economia para tal. Ou seja, a economia não tinha os recursos suficientes para garantir este tipo de serviço para todos. Foi o progresso económico e tecnológico que permitiu que ficassem disponíveis os recursos necessários para melhorar as condições sociais, alargar a educação e a cobertura de cuidados de saúde.
A melhor forma de aferir o verdadeiro impacto do Estado Social é ver como Portugal evoluiu em relação ao resto do Mundo. Portugal é hoje o 41º no ranking do IDH. Em 1976 era 27º. Ajustado pela entrada de novos países no ranking, Portugal está hoje em termos relativos no mesmo lugar que estava em 1976. Nesse período foi ultrapassado por países com modelos de desenvolvimento muito diferentes como Singapura, Coreia do Sul, Estónia, Malta, Qatar, etc. Com a agravante de que Portugal melhorou os seus indicadores, em linha com o resto do Mundo relembro, de uma forma insustentável, enquanto que os países indicados o fizeram de forma economicamente sustentável. Portugal seguiu um modelo insustentável de descapitalização da economia, asfixiando-a fiscalmente para sustentar o Estado Social, que nos colocou na situação actual. É provável que, para recuperar, passe muitos anos a desenvolver-se menos do que o resto do Mundo.
Em suma, não só o Estado Social não contribuiu para uma melhoria relativa das condições de vida, como fez com que as melhorias que aconteceram em linha com o resto do Mundo não fossem sustentáveis. Daqui a uns anos, quando, e se, acabarmos de pagar pelo modelo insustentável criado, estaremos bem pior em termos relativos do que em 1976. Aí sim, o verdadeiro impacto do “Estado Social” na economia se fará sentir.

7 comentários a “O que é que o Estado Social verdadeiramente fez por si?

  1. a verdadeira razão pela qual Portugal não tinha em 1974 os níveis de literacia e a abrangência de cuidados de saúde actuais é o mesmo motivo para o Mali e a Coreia do Norte não o conseguirem fazer hoje: não tinha economia para tal

    Esta afirmação é manifestamente disparatada. Há países com níveis similares de riqueza que têm níveis muito díspares de literacia, saúde, etc. Por exemplo, o estado indiano do Kerala é dos mais pobres da Índia, porém tem um nível de iliteracia muito mais baixo do que a generalidade dos outros.
    A política tem influência. Pode-se dar mais ou menos importância a um determinado problema – por exemplo, o ensino ou a saúde.

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  3. Os paises que ultrapassaram Portugal desde 1976 tiveram grandes gastos no estado social saude e educação.

    A grande culpa do fraco crescimento económico em Portugal entre 1991 e 2011 são várias decisões macreconomicas erradas tomadas a partir de 1991, especialmente a fixação do cambio numa valor demasiado alto e os subsidios da CEE / UE aplicados de forma errada nos sectores não transacionáveis, e os elevados impostos sobre as empresas.

    O Estado Social actual seria perfeitamente viável numa economia que tivesse mantido um crescimento de 2% ao ano desde 2000.

    • “O Estado Social actual seria perfeitamente viável numa economia que tivesse mantido um crescimento de 2% ao ano desde 2000.” …

      … e o Estado Comunista seria perfeitamente viável numa economia que crescesse 100% ao ano para sempre🙂

      Dizer que o sistema actual seria bom se o resto fosse perfeito (como os governos que dizem que não teriam défice se a arrecadação de impostos fosse melhor do que o previsto) é tentar tapar o Sol com uma peneira. A verdadeira questão é: dado o crescimento económico que se verifica, que gastos orçamentais são possíveis, e onde o fazer.

  4. Penso que o enorme aumento dos niveis de vida em Abu Dhabi sob o sheikh Zayed em comparação com o irmão dele que governava antes foi largamente devido a mais “Estado social” (as receitas do petróleo já lá estavam).

  5. Pedro S,

    A produtividade média dos ultimos 150 anos é de 1,5% ao ano. Um crescimento de 2% ao ano apenas pressupõe aumentar a produtividade de 1,5% ao ano para 2% ao ano, o que seria bastante provavel mantendo a procura a crescer 2% ao ano e tendo uma economia mais livre e com menos impostos.

    Alías os EUA são um caso onde a produtividade média cresce 2% ao ano durante várias décadas.

    Porque não aplicar os ensinamentos dos EUA à U.E. e a Portugal ?

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