Sistemas de segurança social 101

Imaginemos uma ilha onde o único sector produtivo é a pesca e o único produto de consumo é, surpreendentemente, peixe. Esta ilha está a passar por uma fase de transição demográfica. Existem de momento 4 adultos, 2 reformados e 2 crianças. É de esperar que no futuro passem a ser 2 adultos para 4 reformados e 2 crianças. Cada adulto é capaz de pescar 4 peixes ou produzir uma rede. Com rede, cada adulto pode pescar 6 peixes. O que é que aconteceria com a economia desta ilha num sistema de redistribuição e num sistema de capitalização?

Sistema de redistribuição

Num primeiro momento, o boom demográfico permite que a economia produza 16 peixes, o que garante 2 peixes a cada habitante da ilha. Já num segundo momento, a redução do número de adultos reduz proporcionalmente o número de peixes pescados. Assim sendo, os dois adultos pescam 8 peixes, garantindo apenas 1 peixe por habitante da ilha.

Redis

Sistema de capitalização

Num sistema de capitalização, parte do esforço dos adultos dirige-se à produção de bens de capital. Ou seja, a população abdica de consumir peixes, para garantir o aumento do stock de capital (neste caso, redes de pesca). Em vez de produzirem 16 peixes, produzem 12, direccionando oo restante esforço para a produção de redes de pesca. Repare-se que o consumo de peixes aqui é menor do que na situação anterior. Num segundo momento, a redução do número de adultos é compensada pela existência das redes de pesca que permitem um aumento de produtividade. Este aumento de produtividade garante a continuidade dos padrões de consumo anteriores. É importante notar aqui, que quanto maior o número de adultos no primeiro período, maior será o número de redes disponível no segundo período.

Capital

Um sistema de redistribuição é um sistema que favorece o consumo, prejudica a poupança, descapitalizando a economia. O pior é que existe um gap temporal entre o problema e o seu impacto. No sistema de redistribuição apresentado acima, não há qualquer forma de, com um passe de mágica garantir a sustentabilidade dos níveis de consumo do 1º período. Antes pelo contrário, a solução terá que passar por reduzir ainda mais o consumo no 2º período para desviar recursos para a produção de redes e, inevitavelmente, colocar reformados a pescar.

Leituras adicionais:
A Casa arde
Assaltar a casa enquanto arde

11 comentários a “Sistemas de segurança social 101

  1. No mundo ideal da fábula neste post, as coisas passam-se assim: a poupança realizada é relativamente pequena, ela traduz-se imediatamente em investimento, e o investimento conduz inevitvelmente a um aumento da capacidade produtiva.
    No mundo real as coisas estão longe de ser assim. A poupança pode traduzir-se em especulação que não corresponda a qualquer investimento real. O investimento real pode revelar-se um mau investimento, não conduzindo a qualquer produção acrescida. Tudo isto é piorado pelas quantidades maciças de dinheiro envolvidas. Hoje em dia uma pessoa trabalha 40 anos mas quer viver reformada durante 20 anos, o que quer dizer, na prática, que terá que poupar para a reforma perto de um terço do seu rendimento. Ora, quando a poupança é muito elevada, torna-se difícil encontrar para ela uma aplicação rentável; o mais provável é que ela acabe num qualquer esquema especulativo que não corresponda a qualquer investimento real em capacidade produtiva.
    Eu acho mais importante olhar para os dados do mundo real, em vez de olhar para fábulas. Muitos chilenos estão hoje a descobrir que o dinheiro que tinham poupado para as reformas é afinal insuficiente. E os esquemas de capitalização estão todos a passar para defined contribution, o que significa, na prática, que já não prometem ao aforrador qualquer valor fixo de uma pensão de reforma. E fazem bem, porque o que se verifica é que muitos desses esquemas têm ns últimos anos perdido dinheiro – isto é, uma pessoa poupa 100 e, passados uns anos, já só tem 90.

  2. Existem de momento 4 adultos, 2 reformados e 2 crianças. É de esperar que no futuro passem a ser 2 adultos para 4 reformados e 2 crianças.

    Mais corretamente, seria assim: hoje existem 2 reformados, 4 adultos e 2 crianças, daqui a dez anos existirão 3 reformados, 4 adultos e 1 criança, e daqui a mais dez anos serão 4 reformados, 4 adultos e 0 crianças. Ou seja, o número de adultos mantem-se constante e o número de dependentes também se mantem constante. Isto porque, à medida que os adultos se vão reformando, as crianças vão atingindo a idade adulta…

    Ou seja, aquilo que faz aumentar a taxa de dependência não é, de facto, a baixa da natalidade, mas sim o facto de os reformados o permanecerem durante mais tempo (por viverem até mais tarde) e o facto de as crianças também o permanecerem por mais tempo (por só começarem a trabalhar mais tarde).

  3. Pingback: Leitura recomendada « O Insurgente

  4. O sistema de segurança social universal é o que melhor satisfaz o sistema capitalista porque incentiva o risco, ao contrario de um sistema voluntario porque :

    a) quem arrisca a produzir redes pode-o fazer porque se for à falência ou ficar desempregado na fabrica de redes recebe um subsidio de desemprego.

    b) quem arrisca a fazer fabricas de redes sabe que a procura de peixe e de redes será maior porque os desempregados têm dinheiro para comprar peixe.

    c) a historia comprova este teses elementares.

    • Pelo que percebi a ilha e comuna
      1) nao tem desempregados
      2) nao ha guito, so ha peixe que e dividido por todas as bocas de maneira igual.

  5. Pingback: Anónimo

  6. “Num sistema de capitalização, parte do esforço dos adultos dirige-se à produção de bens de capital. Ou seja, a população abdica de consumir peixes, para garantir o aumento do stock de capital (neste caso, redes de pesca)”

    Certo. Garantindo bons rendimentos aos comerciantes de redes de pesca e deixando os pescadores na penúria no primeiro momento. E quando quiserem vender os aparelhos de pesca no segundo momento, se não houver gente nova, também não têm quem os compre.

    “Um sistema de redistribuição é um sistema que favorece o consumo, prejudica a poupança, descapitalizando a economia”

    Não. Se o consumo fôr de peixes e não de Mercedes importados favorece o crescimento, diminuindo o desemprego e beneficiando a poupança.

  7. Pingback: Segurança Social falhou, e agora? | A Montanha de Sísifo

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  9. Pingback: O “excedente” da Segurança social | A Montanha de Sísifo

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