Como aumentar os salários dos portugueses

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Álvaro Santos Pereira veio a público dizer que os salários são demasiado baixos em Portugal. Tem razão. Quem olhar para a comparação dos salários entre países da União Europeia só poderá tirar a mesma conclusão: em Portugal ganha-se mal. Podem-se seguir dois caminhos para aumentar estes salários: o socialista e o de mercado.
O método socialista consiste em aumentar salários por decreto (por exemplo, subindo o salário mínimo nacional) e dar poder à negociação colectiva (por exemplo, dando aos sindicatos o poder de estabelecer as regras de acesso a certas profissões). Como os factores de produção são fixos no curto prazo, é bastante provável que medidas deste género causem uma subida dos salários. Mas como nenhuma destas medidas altera os fundamentais da economia, nomeadamente a produtividade, este aumento de salários não será sustentável. Estas medidas apenas aumentam os salários à custa da remuneração do capital o que, a prazo, resultaria numa ainda maior descapitalização da economia. A médio prazo estas medidas causariam um aumento do desemprego, seguido de redução dos salários reais. Isto, para além de atrasar a economia mais uns anos.
Depois há o método de mercado que passa pela capitalização da economia. A capitalização da economia ajudaria à subida dos salários de duas maneiras. A primeira seria através do aumento de produtividade. Os factores de produção, capital e trabalho, são complementares: quando mais existir de um (até certo ponto), mais produtivo será o outro. Assim, quanto mais capitalizada for a economia, mais produtivos serão os trabalhadores e mais poderão ganhar. Isto é especialmente relevante, tendo em conta o recente fluxo de emigração de trabalhadores qualificados que, apesar de terem o potencial académico para serem produtivos, não encontram no país o capital necessário para aproveitar esse potencial. Dito de outra forma, um piloto de aviões pode ganhar mais do que um condutor de camiões, mas só se tiver aviões (capital) para pilotar. Se tudo o que tiver for uma carroça, ganhará o mesmo que um carroceiro, mesmo que tenha educação para ser piloto. A segunda forma pela qual a capitalização da economia ajudaria a aumentar salários é o ganho de poder negocial do factor trabalho. Numa economia em que existam escolhas, os trabalhadores têm uma maior capacidade negocial individual, podendo assim negociar melhores salários. Para capitalizar a economia, o governo teria que tornal Portugal um sítio mais atractivo para investir, baixando carga fiscal e eliminando barreiras burocráticas. Nenhuma destas iniciativas seria popular: baixar a carga fiscal implica implica também reduzir a despesa do estado e os actuais incumbentes de diferentes sectores irão certamente combater a eliminação de barreiras burocrática. Mas a diferença desta solução em relação à anterior é que o aumento de salários seria feito em paralelo com o crescimento da economia e do rendimento do capital, sendo assim sustentável.
Olhando para o posicionamento de Portugal na média de salários da Europa, só se pode concluir que é preciso que os salários subam em Portugal, e há duas formas de o atingir. A forma socialista é mais fácil politicamente, garantirá ganhos eleitorais de curto prazo, mas também atrasará ainda mais a economia, provocará desemprego e será possivelmente negativa para o nível salarial no médio prazo. O método de mercado é mais indirecto, será mais dificil de vender como uma conquista do governo, encontrará oposição das ruas, mas também será a única forma de subir salários sustentadamente, suportando o crescimento da economia. Aceitam-se apostas para qual das duas soluções este governo irá optar.

15 comentários a “Como aumentar os salários dos portugueses

  1. dando aos sindicatos o poder de estabelecer as regras de acesso a certas profissões

    De uma forma ou de outra, há certas profissões que têm acesso condicionado em quase todos os países. A mais notável talvez seja a de médico, mas, dependendo do país, pode haver outras: engenheiro civil, advogado, etc. Trata-se de profissões nas quais a má prática pode ter consequências consideradas desastrosas.
    Parece que há países, por exemplo os EUA, onde esta limitação de acesso a profissões atinge paroxismos e é muito mais dramática do que Portugal. Não me consta que Portugal seja dos países onde haja mais profissões de acesso condicionado. E parece que há países – por exemplo os EUA – nos quais, apesar de haver muitíssimas profissões de acesso condicionado, o progresso económico e a taxa de remuneração do capital são bem mais altos do que em Portugal.

  2. Pingback: Para aumentar os salários dos portugueses de forma sustentável é preciso capitalizar a economia « O Insurgente

  3. então não
    numa fábrica de bolo rei com 12 toneladas por semana a 2 eurros por 600 gramas é facilimo aumentar de 500 eurros para 1200 cada um dos 6 proprietários-operários,,,,,,
    nem sei como é que faliram a ganhar só 500 eurros..e no natal……..coisas

  4. O governo não tem de optar por solução nenhuma. Tem é de abandonar a sua propensão intervencionista e deixar a economia funcionar livremente, responsavelmente, sem peias, sem amarras, sem pretecionismos, sem amiguismos, sem coacções.

    • Isso é muito bonito de dizer em abstrato, e eu até concordo.
      Na prática colocam-se questões difíceis.
      Por exemplo, como referido neste post, a regulação de profissões. Há-de o governo deixar qualquer pessoa exercer qualquer profissão, sem dar ao consumidor qualquer garantia quanto à capacidade dessa pessoa?

    • Se a economia funcionasse sozinha não seria necessária a sua intervenção (não que seja uma boa intervenção no nosso caso), mas se tal intervenção não existisse estaríamos todos a passar fome, seriamos pedintes sem tecto, pessoas sem alma nem expectativas, miseráveis de profissão. Pois os magnatas do capital descobririam ai uma maneira para descapitalizar a população, com o seu sempre vil sentido de oportunidade. Senão os grandes magnatas não usariam mão-de-obra infantil, trabalho escravo sem escrúpulos nem valor.

      Enquanto forem todos gananciosos, sem um sentido de responsabilidade social, sem valores nem princípios será sempre assim ciclicamente.

  5. “Há-de o governo deixar qualquer pessoa exercer qualquer profissão, sem dar ao consumidor qualquer garantia quanto à capacidade dessa pessoa?”

    A “certificação de qualidade” pode ser fornecida por entidades independentes. E não vejo o problema de deixar alguém exercer a profissão sem a certificação, desde que seja obrigatório cada profissional dizer (ou afixar em lugar proeminente à entrada do local de trabalho e/ou em qq anúnci/publicidade) as “certificações de qualidade” que possui, e responsabilizar-se civil e criminalmente por imcompetência/negligência. Qt a mim, as Ordens profissionais deviam ser entidades certificadoras de qualidade, e não formas de impedir os “profanos” de se dedicar a uma actividade.

    • Na prática, isso pode levar àquilo que se condena neste post: os sindicatos (sob o nome pomposo de “Ordens”) limitam o acesso às suas profissões.
      Em vez de ser o Estado a limitar o número de médicos, seria a Ordem dos Médicos. Seria pôr a raposa a guardar o galinheiro.

  6. O problema de deixar o mercado regular a economia e por sua vez os ordenados são os nossos patrões. Quando estamos a falar de multinacionais que se instalam em Portugal concordo que este sistema funciona, mas quando são empresas portuguesas, principalmente as mais pequenas, já não concordo pois na maioria dos casos os ordenados são miseráveis e mesmo que sejas muito produtivo nunca ganharás mais porque não há, por parte dos patrões, o reconhecimento necessário tanto em termos salariais como a nível pessoal*. Não digo isto da boca para fora porque tenho amigos e colegas que estiveram nestas condições.

    Mesmo com o regular do ordenado minímo há pessoas que recebem menos que o que está estipulado. imaginem agora sem a regulação do ordenado minímo.

    Pode eventualmente haver um meio termo e para que isso aconteça era necessário que todas as forças políticas, sindicatos e patrões entrassem num debate sério e com a mente aberta… mas isso acho que é pedir demais.

    P.S–> Os novos empresários acho que já estão mais voltados para as questões de valorização do desempenho.

    • O funcionamento do mercado não depende da boa-vontade dos patrões. Se existir capital e concorrência, um trabalhador que produza muito mais do que recebe, pode sempre mudar-se para o empregador ao lado ou criar a sua própria empresa e beneficiar de toda a sua produtividade. Se tal não acontece hoje é porque não existe capital suficiente para que o empregado tenha alternativas. O empresário que consegue sobreviver as burocracias e fiscalidade do estado, tem assim maior poder negocial.

    • A Alemanha não tem salário mínimo. Então porque razão eles ganham mais? .. Não é por os patrões de certeza, pois se o senhor quiser abrir um negócio na Alemanha e dar ‘baixos salários’ aos trabalhadores não vai conseguir ter trabalhadores. O mercado selecciona os melhores empresários, e serão esses os competitivos. Infelizmente, em Portugal não há mercado livre. E isso está a tornar-se regra em todo o ocidente.

  7. Luís Lavoura disse:
    “Na prática, isso [transformar as ordens en entidades de certificação] pode levar àquilo que se condena neste post: os sindicatos (sob o nome pomposo de “Ordens”) limitam o acesso às suas profissões.
    Em vez de ser o Estado a limitar o número de médicos, seria a Ordem dos Médicos. Seria pôr a raposa a guardar o galinheiro.”

    Discordo profundamente…. Hoje em dia é que as Ordens limitam o acesso às profissões, uma vez que só os seus membros as podem exercer legalmente. Transformá-las em entidades de certificação SEM poderes de monopólio permite abrir o acesso às profissões, uma vez que se pode ser certificado por outras entidades (p.ex.. a Universidade em que se formou é, pela sua própria Natureza, uma entidade certificadora). O tempo se encarregará de estabelecer a reputação de cada uma das entidades certificadoras, e os clientes decidirão em função disso.

  8. Essa teoria pressupõe a existência de um mercado perfeito o que não existe. Existindo muito menos patrões do que trabalhadores a idéia de que estes não se organizarão se os sindicatos deixarem de existir e o mercado vai funcionar é ingénua. Também é falso que o capital não tem pátria, as decisões dos grandes grupos económicos internacionais são muitíssmo influenciados pela nacionalidade dos seus dirigentes. Também é falso que o mundo é um mercado livre, nenhum país cumpre as regras dos mercados e não serve de nada queixarmo-nos porque eles não têm a fé religiosa do liberalismo.
    A aplicação esforçada desta teoria pelo nosso Governo não parece estar a conduzir a nenhuma melhoria visível. Se se deixassem de teorias, establecessem metas concretas talvez fosse possível prever qual o resultado da desregulação do mercado salarial porque tanto anseiam.
    Esta história de que vêm aí amanhãs que cantam é das coisas mais tristes que existem.

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