Dois homens do ano

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Tem razão o João Miranda: Vítor Gaspar foi o homem do ano e será lembrado como uma das personalidades que mais contribuiu para resolver os problemas do país. A sua contribuição será a de expôr a impossibilidade de sobrevivência de um estado social falido e a de ultrapassar os limites da extorsão fiscal, revelando a insustentabilidade do sistema. Ao fazê-lo, fará a demonstração final da impossibilidade de sobrevivência do regime.
Em 1989, Gorbachev foi escolhido, pela segunda vez, como homem do ano da revista Time. Menos de 20 meses depois, o regime que liderava, e que tentou reformar, caiu de podre. Muitos dos problemas que afectavam o regime comunista foram resolvidos após a queda do regime. Gorbachev, ao expôr essas fracturas, foi das personalidades que mais contribuiu para a sua resolução. Gorbachev foi um gestor de falência que expôs as fragilidades do regime, assim como Gaspar.

1 comentário a “Dois homens do ano

  1. Diferenças a queda do regime soviético e a situação portuguesa.

    1. Desejo de mudança.
    População da União Soviética queria mudança, um novo futuro. População portuguesa quer o status quo, regressar ao passado do endividamento.

    2. Forças interna de poder.
    Na URSS uma minoria controlava a maioria, uma situação instável assim que se retiram os mecanismos de repressão. Em Portugal uma maioria de takers (beneficiários do estado social) tem o poder de expropriação sobre uma minoria de makers (contribuintes líquidos para o estado social). Os makers são desorganizados e não conseguem alavancar o seu poder político. Resignam-se, juntam-se aos makers ou emigram.

    3. Dependência do exterior.
    A URSS era independente de poderes exteriores (na verdade exercia poder sobre muitas regiões e povos, o que constituía um sorvedouro de recursos). Portugal tem uma dependência real e muito forte dos credores, BCE e UE, com um programa concreto de governação imposto externamente por estas entidades. Os custos de saída, de nos libertarmos destes poderes, são muito superiores aos de permanência. Nem a Grécia, numa situação extrema, optou por se libertar destes poderes.

    Por isso, não espere uma revolução liberal interna. Pela vontade dos portugueses. Pela mentalidade colectivista e socialista. Pela aversão ao risco e à mudança. Pelo distorção das percepções feita pelos media. Pelas forças de bloqueio insituídas. Pela relação de forças entre takers e makers. Depois da última década, a realidade devia entrar pelos olhos adentro dos portugueses, mas a capacidade de a negar é enorme. A falência do Estado será sempre explicada pelos media e entendida pelos “takers” como culpa do “papão neo-liberal” (mesmo perante evidente ausência de neo-liberalismo), que usurpa direitos divinamente adquiridos cristalizados para todo o sempre na constituição. Para os takers, e eles são a maioria, a solução não será o liberalismo, mas mais socialismo. É assim que maioria dos portugueses pensa. Veja o que acontece na Argentina. Depois do colapso de há uma década atrás, a solução continua a ser o populismo colectivista.

    Face à falência do estado social português e ao fim do crédito externo, as reformas far-se-ão por pressão exterior. Não teremos uma revolução por via interna, mas uma reforma por via externa. As boas notícias são que a via do FMI é baseada na disciplina fiscal e na liberalização da economia (apesar da via da uniformização e pressão fiscal da UE, contrária aos interesses de um país pobre e periférico).

    As más notícias é que temos muitos travões internos ao programa da troika, os mais poderosos dos quais têm sido o Tribunal Constitucional (com a sua ignóbil decisão) e os media, com uma distorção mal intencionada e mal informada da opinião pública. A decisão do governo pelo aumento do IRS foi a sua 3a alternativa, após a imposição do TC de “alargar a dor” aos privados e das manifestações anti alterações à TSU. A Troika e Vítor Gaspar são elementos liberalizadores da nossa economia e disciplinadores da orçamentação do Estado, não duvide disso. Mas não são os únicos que tomam e influenciam decisões. Apesar do caminho ser tortuoso, com passos à frente mas com outros atrás, o peso do Estado na economia tem vindo a diminuir fortemente e o plano é que continue a diminuir.

    Se pensa que o fracasso de Vítor Gaspar ou um colapso do programa da troika iriam trazer a sua desejada revolução liberal endógena, desengane-se. Seriam o perder de uma oportunidade para Portugal. Seriam a confirmação perante todos os “takers” que a liberalização da economia não funciona. O que se seguiria seria o colapso “a la grega”. Uma agonia permanente que nos atiraria para as mãos da extrema-esquerda.

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