A nacionalização da vida

mifpfp
Um sistema nacional de saúde pode ser gerido de uma de duas formas. A primeira é a opção “A vida não tem preço” que consiste em colocar todos os recursos necessários ao serviço da saúde. Esta opção é a quase unanimemente escolhida pela maioria dos portugueses, excepto, claro, quando chega a hora de pagar por ela. Há alguns meses, o secretário de estado adjunto da Saúde afirmou que o Sistema Nacional de Saúde poderá deixar de comparticipar tratamentos que prolongam a vida de doentes terminais. A reacção foi a esperada e com os argumentos previsíveis. Falou-se sobre um estado cruel que não utiliza todos os recursos possíveis para prolongar a vida de doentes, o tal argumento de que a vida não tem preço. A verdade é que, apesar de ser um argumento popular, todas as pessoas o contradizem diariamente. Ao sairem de casa para o trabalho, os indivíduos têm a noção de que correm um maior risco de vida do que se não o fizerem. Mesmo assim fazem-no, colocando um preço (um dia de salário) no aumento de probabilidade de morrer. Ao desfrutarem de certos prazeres da vida também sabem que estão a colocar em causa a sua longevidade. Se questionados sobre se preferem comprar um carro de 20 mil euros aos 30 anos ou viver mais duas semanas ligados às máquinas com 80 anos, a maioria das pessoas optará pela primeira opção. Ou seja, consciente ou inconscientemente, as pessoas têm a noção de que a vida tem um preço e, colocados perante a necessidade de pagar por ela, facilmente rejeitam a opção “A vida não tem preço”.
Este tipo de escolhas são muito pessoais, mas não levantariam problemas morais se a responsabilidade das consequências também fossem individuais. A existência de um serviço nacional de saúde socializa as consequências dessas opções individuais. E é neste contexto que surge a segunda opção: o nanny state. A ideia do nanny state é impedir que opções de vida com consequências sociais sejam também socializadas. O mesmo secretário de estado que anunciou a medida descrita no primeiro parágrafo do texto, tem feito consecutivos anúncios de intenção de se intrometer na vida dos portugueses para as tornar mais saudáveis, de maneira a poupar dinheiro ao Sistema Nacional de Saúde. Proibições de fumar, restricções ao tipo de alimentos que tomam e sin taxes para incentivar estilos de vida saudáveis. Ou seja, perante a impossibilidade de utilizar recursos infinitos resta ao estado tentar cortar o mal pela raiz, impedindo opções individuais por estilos de vida menos saudáveis. O que se está a admitir neste caso é que a tomada de responsabilidade pelas consequências dos actos, dá ao estado o poder de comandar os próprios actos. Quando esta acção a nascente não é suficiente, o nanny state aparece na sua versão mais negra a poente com os paineis da morte, em que grupos de médicos e burocratas decidem quem deve morrer e quando, baseado em critérios definidos centralmente.
Os sistemas de saúde públicos estão condenados a ser uma de duas coisas: um sorvedouro infinitos de recursos com algum sucesso em prolongar os anos de vida, mas à custa de os tornar miseráveis (como é o caso de Cuba); ou então tornarem-se prisões de saúde em que o estado aspira a controlar todos os comportamento individuais que possam implicar custos de saúde, e onde a decisão de quem vive ou morre fica nas mãos de um grupo de burocratas. Quem defende um serviço nacional de saúde público, mas não está disposto a colocar nele todo o seu dinheiro, terá que se habituar a viver com esta realidade.
A nacionalização da saúde, implicará, mais tarde ou mais cedo, a nacionalização de opções individuais que a afectem, ou seja, a nacionalização da vida.

3 comentários a “A nacionalização da vida

  1. onde a decisão de quem vive ou morre fica nas mãos de um grupo de burocratas

    Os sistemas privados de saúde também são isso mesmo. A generalidade desses sistemas têm um grupo de burocratas que decide quais os tratamentos que são financiados e quais os que não o são, ou então quais são as pessoas que são aceites no sistema e quais as que não o são. Adicionalmente, muitos sistemas privados de saúde só aceitam pessoas trabalhadoras, abandonando-as à sua sorte mal elas deixam a idade ativa.

    O único sistema de saúde que não tem um grupo de burocratas é o de Singapura, o qual é baseado nas poupanças individuais. As pessoas pagam os seus tratamentos com as suas próprias poupanças. Não sei se é esse o sistema que o Carlos defende. Duvido que grande parte da população portuguesa esteja disposto a aceitá-lo. E, mesmo esse sistema tem importantes limitações, nomeadamente à medida que a populaçao envelhece (Singapura já hoje enfrenta essas limitações).

  2. A diferença é que com sistemas de saúde privados se não gostar de um grupo de burocratas, pode mudar para outro sem ter que se deslocalizar. Num sistema privado, os grupos de burocratas menos eficientes ou menos generosos acabarão por ficar sem clientes para burocratizar.

    • A diferença é que com sistemas de saúde privados se não gostar de um grupo de burocratas, pode mudar para outro sem ter que se deslocalizar.
      Certo. Mas continuará a ter grupos de burocratas (aliás, terá mais grupos até) que decidem da vida e da morte.
      Ademais, se você não gostar de um grupo de burocratas que o condena a morrer, não poderá mudar para outro grupo, pois os sistemas de saúde privados não admitem novas entradas de pessoas que eles já sabem estar muito doentes. Por exemplo, se você tiver um cancro e o grupo de burocratas do seu sistema de saúde achar que não vale a pena tratá-lo, não poderá mudar para outro sistema, pois os outros sistemas já saberão que você tem um cancro difícil e não aceitarão a sua entrada. Ou seja, é precisamente quando você mais gostaria de poder mudar de burocratas que não será autorizado a fazê-lo.
      E ainda resta a minha segunda objeção. Em Portugal há muitos seguros de saúde privados, mas só aceitam pessoas trabalhadoras. Quando a pessoa envelhece e deixa de trabalhar, deixa de usufruir do seguro de saúde, precisamente quando (potencialmente) mais precisaria dele.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s