A escassez de capital em números

Tenho escrito esta semana sobre o problema da escassez de capital. Gostaria de clarificar um ponto: quando falo de escassez é sempre de escassez relativa. Por definição económica tudo é escasso: o consumo é escasso, o número de diplomados é escasso, o investimento é escasso e até o número de ferraris é escasso. Claro que quando há factores interdependentes, a escassez terá de ser medida em termos relativos. Se eu tiver 6 pneus e 2 dois carros, tenho uma escassez de pneus. Mas se tiver 6 pneus e 1 carro, já não tenho escassez de pneus, mas sim de carros.

Dito isto, vamos aos números. No gráfico abaixo podem ver a evolução da formação bruta de capital fixo em % do PIB, basicamente a % da riqueza criada anualmente que é investida:

FBCF
(Fonte: Pordata)

O ano record até hoje foi 1974, ano em que 33,1% do PIB foi para formação bruta de capital fixo. Desde aí a tendência tem sido sempre negativa, apenas com alguns interessantes ressaltos. Um desses ressaltos acontece pouco antes da 2ª vinda do FMI, sendo seguida de uma forte queda que se prolongou até 1986, o ano em que Portugal entrou na CEE. Os fundos da CEE patrocinaram um novo ressalto no investimento. O ressalto seguinte aconteceria na fase de pré-entrada e entrada no Euro em que as taxas de juro baixaram drasticamente. Apesar destes ressaltos, a tendência decrescente culminou 2011 ter perto de metade do valor de 1974. Desde 2004 que se andam a bater records negativos.
Entre 1974 e 2011 a formação bruta de capital fixo caiu 15 pontos percentuais em relação ao PIB. Será isto porque o consumo privado aumentou? Não, antes pelo contrário, o consumo privado manteve-se estável ao longo dos últimos 40 anos, tendo até caído 0,9pp em % do PIB entre 1974 e 2011. Já o consumo público em % do PIB no mesmo período aumentou em 8pp .

Olhemos agora para a evolução no número de diplomados:

curso
(Fonte: Pordata)

No mesmo período de tempo, o número de pessoas com o curso superior aumentou 2500%. Há hoje 25 vezes mais pessoas com o curso superior do que em 1970. O país anda a formar pessoas, mas esquece-se de criar as condições para que haja empresas que as empreguem. Ou, recorrendo à metáfora anterior, cada vez há mais pneus, mas investe-se menos em carros.

Para complementar esta ideia, podemos fazer umas contas por alto, baseado nestes e nestes números, para concluir que o stock de capital por trabalhador com curso superior caiu uns fantásticos 52% entre 2000 e 2010.

Da próxima vez que alguém se queixar que o filho não encontrou emprego à saída da universidade, falem-lhes destes números.

2 comentários a “A escassez de capital em números

  1. Pingback: Uma longa travessia | A Montanha de Sísifo

  2. “Da próxima vez que alguém se queixar que o filho não encontrou emprego à saída da universidade, falem-lhes destes números. ”

    Ou perguntem que curso tirou, que normalmente a resposta a essa pergunta é mais importante.

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