Viver ao lado das nossas possibilidades

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Um dos argumentos mil vezes repetido é o de que os portugueses viveram acima das suas possibilidades. É falso. Os portugueses viveram sempre bem abaixo das suas possibilidades. O grande problema é que, apesarem de terem vivido abaixo das suas possibilidades, gastaram acima. Viveram abaixo e gastaram acima porque deixaram que fosse o estado a decidir por elas quanto e onde gastar. A maioria dos eleitores portugueses, foi escolhendo em diversas eleições, entregar nas mãos de algumas dezenas de pessoas metade do seu rendimento, permitindo-lhes ainda que gastassem mais do que recebiam, pondo em causa o seu futuro. O problema, como defendia Milton Friedman, é que é impossível a estas poucas dezenas de pessoas adivinhar as preferências individuais e dinâmicas de milhões de pessoas. Ao gerirem recursos que não são seus em benefício de terceiros, o estado acabou, consequentemente, por alocar esses recursos erradamente. O problema não foi viver acima das possibilidades, foi viver ao lado dessas possibilidades, gastando acima.
O grande problema destas escolhas é que uma vez feitas, são irreversíveis. Já não podemos voltar atrás e dizer que não queremos a Expo98, o Euro2004, as SCUTS, a Parque Escolar, os submarinos, as centenas de observatórios, institutos e departamentos do estado. Podemos escolher entre consumir no presente ou no futuro, mas quando o futuro chega, já não podemos reverter as escolhas do passado, apenas pagar por elas. No longo prazo, as contas acabam por se acertar. Não há muito a fazer em relação ao passado, mas podemos, e devemos, retirar lições para o futuro. As poucas dezenas de pessoas que decidem como alocar os recursos do estado, mesmo que eleitas por milhões, não podem ter na sua mão metade do rendimento do país. Muitos responsabilizam exclusivamente políticos específicos do passado pela situação actual do país, mas este é um pensamento perigoso, porque assume que com pessoas diferentes o resultado teria sido outro. Não teria, porque o problema não está nas pessoas, mas nos incentivos. A solução não é rezar por políticos mais competentes ou menos corruptos no futuro, mas garantir um enquadramento em que lhes seja dado menos poder de decidir a alocação de recursos. É necessário devolver a capacidade de escolha aos cidadãos, começando por uma escolha básica: o que fazer com o seu próprio rendimento.

7 comentários a “Viver ao lado das nossas possibilidades

  1. Nao estou totalmente de acordo. Num país em que os salários e nível de vida sao mais próximos dos países de África que da Europa civilizada, os portugueses viveram acima das suas possibilidades. Casa, carro, telemóvei, internet, televisao, etc – numa altura em que em Portugal nao se vive acima de outros tempos idos, os portugueses adquiriram muito mais bens. Sao questoes que vao além da economia e passam pela sociologia e educacao. Claro que isto é politicamente incorrecto dizer-se, como os bifes da Jonet…

    De resto estamos de acordo: o estado apropria-se de demasiado e gasta em demasiado.

  2. a Expo98, o Euro2004, as SCUTS, a Parque Escolar, os submarinos, as centenas de observatórios, institutos e departamentos do estado

    Como o Carlos bem sabe, e tem sido repetidamente dito, o grande problema não é esse. O grande problema são os funcionários públicos e os pensionistas. Ou seja, são salários e pensões. É dinheiro que os portugueses entregam ao Estado mas que regressa à sociedade sob essas duas formas.

  3. Gosto do tom de optimismo com que acaba o post mas está a pregar no deserto.

    “A solução não é rezar por políticos mais competentes ou menos corruptos no futuro, mas garantir um enquadramento em que lhes seja dado menos poder de decidir a alocação de recursos”
    Muito poucos acreditam nisto. A maioria acredita que um iluminado com boas intençoes ( como o próprio) facilmente resolveria todos os problemas. Como poucos de nós vai para a politica procuramos incessantemente( sem nunca encontrar) alguém que “imponha” as nossas ideas sobre os outros.

    O mais cómico nisto tudo é assistir inumeros debates na TV, em que nenhum dos presentes se entende sobre matéria alguma, mas implicitamente todos concordarem que chegando ao poder possam ter um poder discricionário enorme sobre a liberdade dos demais.

  4. Ironicamente nalguns domininios da esfera privada e profissional já pensamos de uma maneira diferente:
    Existe, por exemplo, pouca adesão à compras on-line no supermercado (” será que escolhem os melhores vegetais?”, “será que verificam a data de validade?”), o outsourcing e externalizaçao de serviços é ainda vista com alguma desconfiança, etc… Entre outros motivos não gostamos que sejam outros a “decidir” com o nosso dinheiro porque acreditamos que conseguimos obter mais com o mesmo.
    Infelizmente esta “desconfiança” não é transportada para a relaçao com o Estado.

    • Não estou de acordo.
      A desconfiança é um dos traços de caráter mais negativos do povo português. Em geral, a desconfiança é má para os negócios, porque faz aumentar os custos das transações. Por exemplo, se os portugueses desconfiam das compras online nos supermercados, serão obrigados a ir eles mesmos pessoalmente ao supermercado fazer as suas compras, o que os fará perder tempo e é portanto menos eficiente.
      Um dos grandes segredos do sucesso dos países nórdicos, como é salientado na edição desta semana do Economist, é que se trata de sociedades em que as pessoas têm um elevado nível de confiança umas nas outras.
      Em Portugal, pelo contrário, somos todos filhos (em alguns, poucos, casos, netos) de carroceiros das berças que passavam a vida a mudar os marcos de delimitação das terras uns dos outros; temos um baixíssimo nível de confiança nos nossos compatriotas. Talvez seja em boa parte por isso que a economia portuguesa não anda para a frente.

  5. Não era minha intençao elogiar a desconfiança até porque estou de acordo com o que escreveu. O que não consigo entender é porque nao temos essa relaçao de desconfiança em relaçao ao Estado e concordamos que grande parte da riqueza que criamos seja canalizada para finalidades decididas por terceiros e não por nós próprios. Se desconfiamos dos compatriotas vizinhos como disse, porque razão nao haveriamos de desconfiar dos serviços que uma entidade abstracta nos presta, com o nosso dinheiro? Exemplos, como deve bem saber, não faltam, para fundamentar esta desconfiança.
    O autor do post afirma que devemos tirar liçoes para o futuro, mas pelo que leio e ouço a conclusão é invariavelmente a mesma, a raiz do problema é que escolhemos, uma vez mais, os governantes errados. Faço um pouco de futurologia e digo já que os próximos Governos continuarão a ser os piores Governos de sempre.

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