A má recessão

Em 2008, depois de anos de sucesso económico, a Letónia enfrentou, como outros países, o rebentar de uma bolha de crédito. O governo da Letónia poderia ter tentado acomodar o impacto da crise como fez o português, mas não o fez. Pelo contrário, deixou que os sectores da economia que mais setinham alimentado de crédito caissem. E cairam rapidamente e com estrondo. O PIB caiu 17% num ano e a taxa de desemprego subiu 10 pontos em apenas dois anos. Os salários cairam cerca de 20%. Nas palavras de Christine Lagarde: “Latvia decided to bite the bullet. Instead of spreading the pain over many years, you decided to go hard, and to go quickly.”.
A estratégia resultou. Em 2010, a Economia da Letónia já cresceu um pouco e em 2011 estava pertos dos níveis de 2008. Isto aconteceu porque o processo de extinção de sectores pouco produtivos e realocação de recursos foi rápido. Compare-se agora com o caso português:

PIB

Fonte: EIU

Em Portugal, o estado tem feito os possíveis para que a recessão não seja profunda, com algum sucesso. Ao lado da Letónia, a linha do PIB em Portugal é quase flat, sem grandes oscilações. O sector privado continua a desalavancar, mas o mesmo já não acontece com o sector público que continuou a acumular dívida. Ao contrário da Letónia, Portugal continua a alimentar sectores ineficientes que viviam à sombra da dívida (maioritariamente o sector público e respectivos dependentes). Um corte a sério causaria uma forte recessão, mas garantiria a realocação de recursos necessária para alimentar a retoma. Pelo contrário, em Portugal, em vez de se reduzir o sector público ineficiente e alimentado há anos por dívida, vai-se matando aos poucos o sector produtivo, ao forçá-lo a alimentar o sector parasita.
Mas isto vai para além de conversa de economistas. Esta decisão tem um impacto humano dramático. Voltemos às comparações entre Letónia e Portugal, desta vez a taxa de desemprego:

DEsemprego

Fonte: EIU

Aqui convém referir dois pontos importantes em relação ao desemprego. O primeiro é que uma economia, por definição, só gera emprego se crescer acima dos ganhos de produtividade. Uma economia estagnada ou a crescer pouco não cria emprego. O segundo ponto importante é que, embora o desemprego possa ser causador de problemas económicos para as famílias no curto prazo, o verdadeiro problema está no desemprego de longo prazo. O desemprego de longo prazo é o verdadeiro factor incapacitante da força de trabalho. Quando os trabalhadores ficam desempregados por mais de 3-4 anos, não perdem apenas o emprego, perdem a profissão. Não é grave que uma economia tenha temporariamente taxas de desemprego de 25%, se puder rapidamente baixá-las para 10%. É bem mais grave para os indivíduos afectados pelo desemprego que uma economia tenha de forma permanente taxas de desemprego nos 15-20%. Uma economia com taxas de desemprego altas e estáveis condena os seus desempregados à incapacidade profissional.
O estado português ao recusar-se a fazer as reformas necessárias para permitir a urgente realocação de recursos de que a economia necessita para voltar a crescer, está a amputar centenas de milhares de pessoas (muitas jovens). Está a impedi-las de adquirirem ou manterem uma profissão, incapacitando-as social e economicamente para o resto da vida. Tudo isto para que alguns possam continuar a viver à mesa do orçamento.
A recessão que se vive em Portugal não é má pelos apenas efeitos imediatos que tem, é má, principalmente, por ser inútil e não estar a servir para corrigir desequilíbrios tão rapidamente como seria necessário. É má porque não é dirigida aos sectores que precisam de ser redimensionados. No final deste processo recessionário chegaremos ao mesmo ponto, mas teremos uma força de trabalho incapacitada, uma geração perdida e um sector privado ainda mais debilitado.

2 comentários a “A má recessão

  1. Análise certeira. Em Portugal os rendistas que parasitam o Estado controlam os processos de decisão a seu favor e bloqueiam as reformas profundas que o país necessita.

  2. -> ‘Paladinos’ do discurso anti-austeridade… ESTIVERAM CALADOS que nem um rato quando os Estados andavam a endividar-se na construção de auto-estradas ‘olha lá vem um’, estádios de futebol sem público, nacionalização de bancos falidos, etc, etc…
    -> O discurso anti-alemão que reina nos media internacionais (nota: são controlados pela superclasse) é uma consequência óbvia: depois de andar a ‘cavar-buracos’ (nas finanças públicas e na banca) e andar a saquear contribuintes em vários países… a superclasse (alta finança – capital global) quer saquear o contribuinte alemão.
    -> A firmeza do contribuinte alemão (não cedendo à pressão exercida internacionalmente…) é fundamental para salvar a Europa.
    { Nota: Depois de ‘cozinhar’ o caos… a superclasse aparece com um discurso, de certa forma, já esperado!… Exemplo: veja-se a conversa do mega-financeiro George Soros: «é preciso um Ministério das Finanças europeu, com poder para decretar impostos e para emitir dívida» }
    .
    .
    P.S.
    -> Um caos organizado por alguns – a superclasse (alta finança – capital global) pretende ‘cozinhar’ as condições que são do seu interesse:
    – privatização de bens estratégicos: combustíveis… electricidade… água…
    – caos financeiro…
    – implosão de identidades autóctones…
    – forças militares e militarizadas mercenárias…
    resumindo: uma Nova Ordem a seguir ao caos – uma Ordem Mercenária: um Neofeudalismo.
    {uma nota: anda por aí muito político/(marioneta) cujo trabalhinho é ‘cozinhar’ as condições que são do interesse da superclasse: emissão de dívida e mais dívida, implosão da identidade autóctone, etc}

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