O Zé não poupa

Tenho falado neste blog várias vezes sobre o problema da escassez de capital em Portugal e os efeitos dessa escassez no produto, no nível salarial e no desemprego (principalmente desemprego qualificado). Esta escassez de capital resultou da acumulação de dívida e de má alocação de capital. O estado, como todos sabemos, acumulou uma dívida brutal, e é um dos principais responsáveis pela actual escassez de capital no país. Mas não foi só o estado que acumulou uma grande dívida. Como a esquerda não se cansa de recordar, também os privados acumularam bastante dívida. Muita dessa dívida acumulada está relacionada com a compra de habitação própria. A entrada no euro influenciou este comportamente, mas não só. Para entendermos melhor as motivações dos agentes no mercado, imaginemos o caso do Zé que considera comprar uma casa.
O Zé tem a sorte de ter um emprego. Ele calculou que, com algum sacrifício, consegue poupar 400 € por mês. Ele viu uma casa que lhe agrada e que não é muito cara: apenas 80 mil euros. Com estes dados tentou entender as suas opções. A primeira opção é pedir um empréstimo ao banco e pagar 400 € por mês. Assumindo uma taxa de juro de 5%, e 400€ de mensalidade, o Zé calculou que demoraria 35 anos a pagar a casa.

EmprestimoSE

No final do empréstimo, teria pago mais de 80 mil euros só em juros. Esta opção exigirá ao Zé trinta e cinco anos de sacríficios mensais, pagando ao fim daquele tempo mais em juros do que o preço da casa. Depois disto, ele considera a opção de poupar até ter dinheiro para comprar a casa sem qualquer empréstimo. Assumindo os mesmos 5% de juro nas suas aplicações (imaginemos que o Zé compra obrigações do Banco) e 400€ mensais poupados, ele calculou que demoraria 12 anos a poupar o valor da casa.

PoupaSE

Neste caso, apenas teria que fazer sacrifícios no orçamento mensal durante 12 anos mas, por outro lado, também teria que esperar 12 anos até poder comprar a casa. O Zé está indeciso: valerá a pena passar mais 23 anos a fazer sacrifícios para poder comprar já a casa?
É aqui que o Zé se lembra do Estado. Alguém lhe diz que o Estado lhe garante um abatimento fiscal no valor de 10% dos juros pagos. Uma excelente ajuda: feitas as contas o Zé, com a mesma taxa de juro e a mesma mensalidade, apenas precisa de 30 anos para pagar a casa.

EmprestimoCE

Por outro lado, o Zé lembra-se que ao poupar se tornará beneficiário de rendimentos de capital pagando um imposto de 30% sobre os rendimentos. Isto atrasa-lo-ia um ano: em vez de 12 anos, teria que esperar 13 anos até poupar o valor da casa.

PoupaCE

Se pedir um empréstimo, o Zé é, aos olhos do estado, um pobre explorado pela banca, merecedor de benesses fiscais que o ajudem a ultrapassar as dificuldades. Se o empréstimo correr para o torto, ainda pode beneficiar de algumas benesses da justiça. A justiça social assim o impõe. Já se poupar para comprar a casa, o mesmo Zé passa ao papel de rico capitalista a viver à custa dos retornos de capital. Em nome da mesma justiça social, o Zé agora tem que pagar impostos sobre esse retorno. Com algum azar, se a coisa der para o torto no pa]is, ainda se arrisca a que ao fim de 10 anos os euros poupados se transformem em Chicos. E ninguém terá pena dele, afinal, se ele tem 60 mil euros no banco só pode ser rico, e é obrigação dos ricos contribuir para o bem comum.

O Zé, que antes estava indeciso, acabou de decidir: irá pedir um empréstimo. Acumular capital em Portugal é uma actividade de alto risco.

11 comentários a “O Zé não poupa

    • Já não, acho eu (penso que os beneficios às CPHs acabaram em 2005).

      E um exemplo de potencias efeitos distorcedores das CPHs enquanto existiram: o que eu fazia quando havia beneficios fiscais às CPHs era, todos os anos depositar um dado valor numa CPH e no ano seguinte usá-lo para amortizar o meu empréstimo (e recuperar no IRS 30% do valor); agora simplesmente uso o mesmo valor para amortizar o empréstimo logo no próprio ano – assim, as CPHs contribuiam para haver mais endividamento, já que me faziam ficar um ano à espera para fazer a amortização

  1. Os benefícios fiscais de uma conta poupança habitação são outra distorção do mercado. O estado financia um produto bancário substandard. O que o Zé não perde em impostos, perde em retorno e comissões.

    • Ou então vive em casa dos pais, dos sogros, num parque de campismo. Ou simplesmente tem uma casa de 100 mil euros, mas quer ter uma de 180 mil.

  2. Pingback: Incentivos | O Insurgente

  3. A realidade é que o Zé pode optar por pagar 400€ e estar a pagar a sua casa, ou pagar 400€ de renda. Além disso, o preço das casas tendem, geralmente, a valorizar e à que considerar a inflação. Passados 15 anos 400€ não terão o mesmo peso no orçamento, já que os salários também tendem a subir. Mas compreendo o que quer demonstrar no seu post.

    • A inflação é neutra neste caso: tanto ingluencia o preço da casa como o salário. Excluí apenas por simplificação. Em relação à renda, podemos assumir que ele mora em casa dos pais ou, mais facilmente, que ele já tem uma casa de 100 mil euros e quer mudar-se para uma de 180 mil.

  4. Há uma dupla vantagem: Quando acabar de poupar para comprar a casa o zé já não precisa de uma casa tão grande porque os filhos já abandonaram a casa.

  5. As casas são um assunto extenso… mas jamais me passaria pela cabeça comprar um carro a crédito. Carros, férias, iTretas, etc. O meu hábito sempre foi poupar primeiro. Enquanto poupamos, muitas vezes desistimos da compra ou, tendo esse tempo de privação para dar mais valor ao dinheiro e menos ao impulso, fazemos escolhas mais racionais. Nunca compreendi aquela ideia de que numa familia tinha que haver mais carros que quartos em casa, nem porque protestavam contra as propinas pessoas que ofereciam viaturas aos filhos saidos do liceu! Quem não tem dinheiro não tem vicios. Mas este modelo economico-social odeia pessoas como eu. A cultura a que devemos obdecer é a do consumismo, da divida, do prazer imediato, pensar pouco, seguir as tendências, etc… não é? Alguém está interessado em ensinar isto aos miúdos? Se em Portugal se produz pouco, usar/consumir/importar mais racionalmente deveria ser a regra. Desafio: O Carlos é capaz de nos mostrar o efeito na balança comercial que tem a redução de importação de automóveis novos? Tudo a circular a petróleo importado. Ainda por cima, sendo quase tudos adquiridos a crédito, que acaba por ser divida externa, com efeitos no rating…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s