O Zé não fica

Quando expus aqui o caso do empreendedor Zé, alguns comentadores questionaram como era a situação noutros países e se esta circunstância tinha de facto algum efeito na economia e no emprego. Recorrendo a alguns dados da KPMG sobre fiscalidade no mundo, consegui reproduzir o mesmo exercício para outros países. Infelizmente, dada a natureza do IRS e da TSU, tive que excluir estes dois impostos/contribuições da análise e restringi-la ao IVA/IRC. Entre os 109 países para os quais existem dados, Portugal é o 13º entre os países onde o Zé pagaria mais em IVA e IRC (Índice de Zé).

ZeMundo

É mais ou menos por esta altura que alguém nota que Portugal não deve ser comparado com o resto do mund, mas apenas com os seus pares europeus. Devo dizer que embora entendendo o raciocínio subjacente, discordo com essa metodologia. comparar os indicadores de Portugal com os de uma europa estagnada economicamente e a perder força no Mundo, é um pouco como limitar um atleta a participar nos Paralímpicos. A economia é global e Portugal hoje não compete apenas com países europeus, nem as suas especializações e restrições geográficas colocam o país na mesma categoria de muitos países europeus. Ressalvando esta questão, avancemos para a comparação, limitando-a aos países da UE. Em baixo podem a competição paralímpica da fiscalidade:

IVA+IRC

Entre os 25 países da União Europeia, Portugal é o nono com a maior fiscalidade (seguindo o índice de Zé). Entre os países que estão à frente de Portugal, apenas dois têm PIBs semelhantes ao português (a Grécia e a Hungria, outros dois atletas em grande forma). Todos os restantes países têm PIBs bastante superiores (portanto, têm uma economia capaz de suportar cargas fiscais superiores). Em baixo podem ver a laranja todos os países com um índice de Zé acima de Portugal.

PIBpc

A questão final que se coloca aqui é: e isto afecta de facto a economia? As análises empíricas em economia são sempre um exercício complicado, principalmente para quem não se dedica a tempo inteiro a fazê-lo, mas em baixo podem ver uma correlação entre o crescimento anual das 25 economias no período 2008-2013 (fonte:FMI).

Europa

A correlação é bastante forte. Em média, por cada 100 a mais no índice de Zé, a economia cresceu menos 3% ao ano entre 2008 e 2013.

A análise empírica aqui quase seria desnecessária. É evidente que um país onde um empresário tenha tão poucos incentivos a criar riqueza, dificilmente terá uma economia dinâmica, dificilmente criará emprego. O Zé, se puder, emigrará, de preferência para fora do inferno fiscal europeu. Não é muito complicado entender as razões. Complicado mesmo é entender o porquê de se andar a insistir nas mesmas políticas fiscais há décadas.

2 comentários a “O Zé não fica

  1. Pingback: Incentivos (3) | O Insurgente

  2. Para o amigo Zé:
    Taxa de IRC 1994 = 36% – deficit publico 1994 = 7%, ministro das finanças 1994 = avô cantigas Catroga
    Taxa de IRC 1999 = 34% – crescimento do PIB 1999 = 3% (aprox.)
    Taxa de IRC 2010 = 12,5% até lucro de 12.500€, e 25% a partir de 12.500 – crescimento do PIB = 1% aprox.
    Taxa de IRC 2012 = 25% – redução do PIB=…..

    Será que o amigo Zé acredita que as PMES portuguesas quando têm lucros declaram ao fisco (actualmente e nos ultimos 30 anos) os resultados reais?
    Sendo o IRC assim tão importante para as empresas, então coloca-se a pergunta: quantas empresas nos ultimos dez anos deslocaram a sua actividade, do litoral para o interior do país, para aproveitarem a substancial redução da taxa de IRC estipulada no regime de incentivos à interioridade??

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s