Ninguém parece ter entendido as implicações do discurso de Cavaco Silva de ontem. Mais do que dar respostas, Cavaco Silva deixou muitas perguntas no ar. A verdade é que para saber exactamente o que vai acontecer é preciso perceber que Cavaco falou ontem. Existem quatro possibilidades:
Cavaco Salomão: Cavaco optou por uma solução salomónica, de psicologia inversa. Ao mandatar os partidos a se unirem deixará o ónus da estabilidade governativa neles. É uma solução que faz sentido porque, seja em 2014 ou em 2015, parece certo que o PS voltará ao poder. Qualquer reforma a sério do país não pode ser feita sem o acordo do PS, com o risco de tudo se inverter quando este partido voltar ao poder. Claro que o grande risco aqui é alimentar os partidos de extrema esquerda (o PCP e o BE) que têm já mais de 20% nas sondagens. E, claro, para ser uma verdadeira decisão salomónica, Cavaco teria que ter já um pré-acordo do PS.
Cavaco Laranja: Cavaco não consultou o PS sobre esta solução e tem a consciência que o PS não a aceitará. Depois de o CDS de Portas ter dado um tiro no pé ao criar a crise política, o PS ficará com o ónus de não ter contribuido para a resolver. Passos Coelho sairia da situação como o único estadista que tentou até ao fim manter um governo estável e cumprir com as obrigações internacionais. A possibilidade de o PSD ganhar as próximas eleições, mesmo que antecipadas, passa de nula a possível.
Cavaco Primeiro: Cavaco quer criar a impressão de estar a dar aos partidos uma oportunidade de se entenderem, sabendo à partida que tal não acontecerá. A falta de entendimento entre os partidos justificará depois a introdução de um governo de iniciativa presidencial. A recente entrada em cena de Manuela Ferreira Leite criticando o executivo PSD pode indicar ser ela a escolhida para liderar esse governo. O facto de criticar um executivo liderado pelo PSD coloca-a acima de qualquer suspeita em termos de independência.
Cavaco Histórico: Cavaco quer ser o último presidente da III República.