A galinha, o ovo, os impostos e a despesa

chicken-and-egg Nos últimos tempos, pelo Blasfémias e nas redes sociais, o Vítor Cunha, o João Miranda e o Luis Rocha têm feito a defesa afincada da subida do IVA na restauração implementada o ano passado pelo actual governo. São dois os motivos apontados para tal defesa: um real mas insuficiente (a distorção económica) e outro falso (o de que para haver cortes de impostos é necessário cortar despesa primeiro).

Comecemos pelo primeiro. A Economia é a ciência que trata a alocação de recursos e não é por acaso que tal acontece: qualquer distorção na alocação de recursos tem efeito no bem estar e crescimento económico. O argumento válido é que IVAs diferenciados são um factor de distorção da alocação de recursos dentro da economia privada. Este argumento, sendo verdadeiro, é fraco por vários motivos. O primeiro grande motivo pelo qual o argumento é fraco é o facto de a grande distorção na economia portuguesa não ser entre os diferentes sectores privados, mas entre estes e o sector público. Qualquer descida sectorial do IVA distorcerá a economia privada, mas ajudará a combater a monstruosa distorção entre economia privada e sector público. O segundo motivo pelo qual o argumento é fraco é o facto de não ser apenas o IVA a provocar este tipo de distorção. A economia privada sofre vários custos indirectos causados pelo estado, nomeadamente através de regulamentos e burocracias. Por exemplo, a ASAE é uma fonte de distorção da economia privada por impôr mais custos ao funcionamento de restaurantes do que de livrarias. Será complicado quantificar, mas até pode ser que, inadvertidamente, a taxa reduzida do IVA na restauração corrija a distorção causada pela regulamentação. Não sei se será assim, mas dificilmente alguém poderá provar que não seja. Finalmente, mesmo se o argumento fosse forte, a posição liberal, e por definição inteligente, aqui seria a de nivelar pelo nível mais baixo de imposto, ou então por um nível intermédio. E é aqui que normalmente surge o segundo argumento: não é possível baixar impostos sem primeiro reduzir despesa.

Este segundo argumento normalmente leva a discussões do tipo do ovo e da galinha. O que é preciso baixar primeiro para reduzir a dimensão do estado: os impostos ou a despesa? Para entendermos isso é preciso entender como decorre o processo de planeamento orçamental. Em termos muito simples, no processo de planeamento orçamental, o ministro das finanças faz uma previsão de receita fiscal para o ano, adiciona-lhe a capacidade de financiamento (o défice possível) e baseado nisso define qual a despesa de cada ministério. Em tempos bons, cada ministro irá tentar aumentar ao máximo o seu orçamentoç em tempos maus tentará que o seu orçamento seja reduzido o mínimo possível. Nenhum ministro tem incentivos a pedir menos dinheiro do que aquele que lhe é alocado, todos têm incentivos a pedir mais. O ministro da educação sabe que terá mais problemas se tentar reduzir o número de professores e o ministro da saúde sabe que terá problemas se não aumantar o salário dos enfermeiros. São cortes de despesas que levam ao fim de carreiras políticas e causam perdas de eleições. Por isso mesmo, cada ministro indivdualmente tenderá a sobreestimar a importância do seu ministério e tentar aumentar o seu orçamento. Nenhum ministro tem incentivos a reduzir despesa na perspectiva de poder reduzir impostos num ano futuro. Havendo a possibilidade, em cada ano, de recorrer a dívida ou a impostos para cobrir despesa, haverá pressão para que tal aconteceça. Um ministro só reduzirá despesa se não houver receita fiscal ou dívida que cubra essa despesa. Não é por acaso que as únicas quedas de despesa pública aconteceram em períodos de crise económica, quando baixa o saque fiscal ou os credores internacionais deixam de estar disponíveis para emprestar. Nenhum governo jamais baixou despesa na perspectiva de baixar impostos no futuro. Nenhum. Nunca aconteceu, nunca acontecerá em democracia. A única forma de reduzir a dimensão do estado em democracia é colocar no centro do debate público a redução de impostos e aproveitar cada abébia populista que daí advenha (como a da redução do IVA da restauração). As oportunidades de redução da carga fiscal e o peso do estado são tão escassas, que é um erro desperdiçar qualquer uma que seja. Poderão contra-argumentar que uma redução agora, apenas irá gerar um aumento no futuro. Tal pode ser verdade, mas se esse aumento futuro for politica e economicamente mais sustentável que um corte de despesa, então acontecerá de qualquer forma. Cabe à opinião pública, nós, fazer com que não seja assim no futuro, travando assim o aumento de despesa que eles suportarão. Defender que esse corte de impostos não ocorra no presente é um mau princípio para o defender no futuro.

É característica dos socialistas defender um estado grande com contas deficitárias. Mas defender um estado grande com contas equilibradas não torna ninguém liberal por oposição, apenas os torna estatistas inteligentes.

10 comentários a “A galinha, o ovo, os impostos e a despesa

  1. Pingback: Somos todos não-socialistas, Carlos | BLASFÉMIAS

  2. Excelente texto. Ao contrário dos raciocínios embrulhados e contra-intuitivos apresentados geralmente pelo Vítor Cunha, aqui o Carlos fez uma argumentação directa, clara e lógica.

  3. Pingback: Sobre a descida do IVA | O Insurgente

  4. Mas a argumentação apresentada tanto justifica um IVA menor na restauração como em qualquer outra atividade. Isto é: é preciso mais qualquer coisa para defender um IVA mais baixo em apenas um setor de atividade. Eu sei que é melhor do que em nenhum setor mas então mais vale baixar a taxa para todos do que apenas na restauração. Perguntando diretamente: na sua opinião, há algum motivo para que a taxa seja reduzida na restauração e não noutro qualquer setor, como as oficinas de automóvel ou cabeleireiros? Penso que a argumentação do Vítor Cunha e do João Miranda tem em conta este aspeto, o da arbitrariedade da escolha deste setor. Obrigado.

    • Completamente de acordo: deveriam descer todos. Não há nada que justifique a diferenciação, mas antes um mais baixo que todos altos.

    • Claro! Quando subiu ficou igual aos outros setores… a questão é o motivo da defesa da diferenciação, que não vejo em lado nenhum…

  5. A diferenciação é como os sobreviventes de um desastre de avião.
    Idealmente poderiam sobreviver todos um pouco, mas não é assim que acontece. Os impostos sobem e o nivelamento faz-se sempre por cima.
    Como tal, mais vale que haja alguns sobreviventes, por mais aleatória que seja a escolha deles, do que morrerem todos.

    • Isto não tem nada a ver com um desastre de avião, é uma decisão administrativa e não uma obra do acaso. As taxas podem ser todas iguais e não é um fenómeno aleatório mas sim deliberado. Já agora, quanto ao ovo e à galinha: durante o reinado Sócrates tivemos impostos demasiado baixos em relação à despesa e esta não cessou de aumentar à conta de dívida, o que contraria (infelizmente) o postulado de que a insuficiência de impostos conduz à diminuição da despesa (só talvez proibindo o endividamento externo, já que o seu custo excessivo também não teve resultados em tempo oportuno). Cumprimentos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s