O Doutor Bambo

O doente está com cancro, diagnosticado tarde e más horas. O paciente não quis saber de tratamento até os sintomas se fazerem sentir com força. O tratamento teve que começar à bruta, quando o doente desmaiou a caminho do hospital. Desde essa altura, perdeu o cabelo todo, deixou de sentir a mão esquerda e anda agarrado às máquinas. É difícil distinguir o que são os efeitos do tratamento dos efeitos da doença não tratada. Não é certo que sobreviva.
A dona Fátima organiza um debate. Para alimentar o debate, monta-se um desfile de familiares do doente. Os familiares estão tristes por o doente já não parecer a mesma pessoa, pela deterioração do seu estado de saúde e da sua capacidade física. O filho queixa-se que a mesada baixou, o irmão que já não tem um amigo para ir para os copos e a mulher de ter que arcar com todas as responsabilidades domésticas. Todos eles concluem o mesmo: gostavam bastante mais do doente antes dele ter desmaiado à porta do hospital e começado o tratamento. A culpa, dizem, é dos médicos que nos dias antes do tratamento ele ainda ia para os copos e ajudava lá em casa. A dona Fátima convida para o debate um médico e o Dr Bambo. O médico é insultado, culpado pela deterioração das capacidades físicas do doente, mas a única resposta que pode dar é de que a alternativa é deixar o doente morrer. O médico sabe que, mesmo com o tratamento, o doente pode acabar por morrer e ele arcar com as culpas, mas prefere tentar. Do outro lado, o Dr Bambo ouve e simpatiza com as pessoas, está do seu lado. Segundo o Dr Bambo, retirar o doente do convívio da família, é frio e desumano. O Dr Bambo diz que é possível curar o doente sem o obrigar a passar pelas dores do tratamento. O Dr Bambo acredita no efeito do pensamento positivo, que se o doente voltar para os copos com os amigos, o cancro curar-se-à por si mesmo. Um chá de asas de morcego teria bastado, diz ele, perante o aplauso da família. A família gosta do Dr Bambo. O Dr Bambo é um covarde irresponsável.

6 comentários a “O Doutor Bambo

  1. Pingback: Cortes, não; queremos o armagedão | BLASFÉMIAS

  2. Entretanto, o doente vai-se adaptando e faz o que ainda pode para recuperar da doença. Só é pena que não possa mandar os familiares (que “só querem o seu bem” mas estão a fazer para que morra) darem uma volta ao bilhar grande.

  3. Será por os familiares do doente estarem em negação, ou simplesmente por burrice ? Ou até por desconhecimento tácito, preferem ignorar a realidade para não terem de actuar em função dela.

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