Um Estado diferente

Acabei de ler o guião da reforma do Estado apresentado ontem por Paulo Portas (bem mais curto do que parece, 30 páginas em Word, com letra tamanho 12 e espaçamento simples). O guião é um bom exemplo da confusão ideológica do CDS, entre o genuíno liberalismo de poucos e o socialismo à esquerda do PSD da maioria. Desta confusão resultou um texto pouco estruturado (para além de terrivelmente formatado), sem uma ideia coesa central em que se tenta agradar a todos, sem ferir susceptibilidades de ninguém. Nas páginas pares defende-se que a iniciativa privada é central ao crescimento económico, nas páginas ímpares desenham-se medidas centralistas de dirigismo económico e construtivismo social. Regressa a ideia do TGV (para mercadorias), da Caixa Geral de Depósitos como banco de fomento, da economia verde (memórias do governo Sócrates…). Fica a sensação que a estratégia da extrema esquerda de tentar colar a ideia de que este é um governo neoliberal funcionou muito bem na mente da liderança do CDS. Em muitas alturas no documento fica a ideia de um partido a querer pedir desculpas e fugir a essa etiqueta.

Daquele amontoado de ideias desconexas e sem sentido, sobressaem duas interessantes. A primeira é a ideia do spin-off da rede escolar, entregando a sua gestão as escolas a professores e comunidades interessadas, a única ideia que verdadeiramente reformaria o sistema de escolas. A segunda é a do Simplex 2, que não só constitui um bom conjunto de medidas em si como ultrapassa a comum partidarite ao aceitar como bom o programa iniciado pelo governo PS.

De resto, o vazio de ideias do documento adivinhava-se pelo título. Um documento de reforma do Estado não deve aspirar a ter um “Estado melhor”, mas um “Estado diferente”. A ideia que fica é de que a reforma do Estado jamais se fará por iniciativa dos actuais partidos de governo, ou de qualquer outro do actual panorama partidário. A reforma do estado continuará a acontecer da forma mais dolorosa possível como até agora: em alturas de crise, sob ameaça, e imposta por credores e entidades internacionais. Foi assim nos últimos 3 anos e será assim nos próximos 30.

2 comentários a “Um Estado diferente

  1. “O guião é um bom exemplo da confusão ideológica do CDS, entre o genuíno liberalismo de poucos e o socialismo à esquerda do PSD da maioria.”
    Que outra coisa seria de esperar do partido que nos “deu” os ministros Assunção Cristas e Pedro Mota Soares?

  2. Estou muito de acordo com esta sua análise. Li o guião na diagonal e a minha apreciação foi também essa. Nota-se particularmente a vontade de agradar a gregos e a troianos.

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