Entender a economia portuguesa*

Para percebermos as consequências das alternativas económicas apresentadas pelos diferentes partidos políticos e comentadores é importante entender a situação que nos trouxe até aqui. Na figura abaixo podemos ver de forma simplificada a situação portuguesa antes de 2011, em que cada caixa corresponde a uma entidade e as setas representam fluxos de dinheiro:

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A caixa rosa representa o Estado, a caixa azul escura a economia, com dois agentes: indivíduos e sector não transaccionável (empresas que vendem apenas para o mercado interno). O Estado mais a Economia Portuguesa são as duas componentes de Portugal. A terceira caixa corresponde ao resto do Mundo. Vamos por partes:

Apesar de simplificado, o modelo ainda pode ser visto como complicado. Vamos então por partes. Primeiro, a parte da esquerda, representando o défice do estado:

2

O estado gastava mais do que recebia em impostos. Foi assim desde 1974 e é isso que representa esta parte da imagem.

Agora, ao centro, a diferença entre consumo e rendimento dos privados. A sublinhado estão as despesas dos privados e a itálico o seu rendimento.

3

Os privados têm três fontes de rendimento: as transferências do estado, os rendimentos de empresas de bens não transaccionáveis e o rendimento das exportações. Têm também três fontes de despesa simétricas: os impostos pagos ao estado, despesas com empresas de bens não transaccionáveis e o custo das importações. Como vimos anteriormente, as receitas provenientes das transferências do estado eram superiores aos impostos pagos, o que gerava um excedente para os privados. Como as despesas com empresas de bens não transacionáveis têm que ser iguais aos rendimentos, este excedente só poderia ter dois fins: a poupança ou o aumento das importações. Na verdade, com taxas de juro baixas e poucos incentivos à acumulação de capital, este excedente foi utilizado ara aumentar as importações. Apesar de pagar menos impostos do que as transferências que recebia, o sector privado absorveu todo esse excedente e ainda se endividou um pouco mais. Atentemos agora às consequências destas duas situações para as relações económicas de Portugal com o resto do Mundo:

4

A economia privada utilizava o excedente proveniente do défice público e as facilidades de endividamento dadas pela entrada no Euro para importar sem precisar de exportar. Obviamente, o défice comercial** tem uma repercussão que é a necessidade de incorrer em dívida para pagar esse desequilíbrio, representada na seta abaixo. Em resumo, a situação de Portugal representada na imagem é a seguinte:

Receitas do Estado:>8
Despesa do Estado: 10
Saldo público: -2

Receitas dos privados: 24 (10 transferências do estado + 10 rendimentos sector não transaccionável + 4 de rendimentos de exportações)
Despesa/Consumo dos privados: 25 (8 impostos ao estado + 10 despesa com sector não transaccionável + 7 de custos com importações)
Saldo dos privados: -1

Necessidades de financiamento externo: -3(-2 défice público -1 défice privado= Saldo da balança comercial**)

Esta foi, portanto, a situação de Portugal nos últimos 20 anos (nuns anos mais, noutros menos, com diferentes proporções, mas a imagem foi sempre algo semelhante a esta). Agora, em baixo podem ver representado o efeito do processo de ajustamento desde 2011. A seta indica o ponto do moelo onde começou o ajustamento:

5

Baixou a despesa do estado, reduzindo a parte do rendimento dos indivíduos correspondente às transferências do estado. Esta redução fez que com os indivíduos gastassem menos em bens não transaccionáveis. Como o consumo de produtos nacionais de uns é também fonte de rendimento de outros***, o rendimento dos privados baixou ainda mais, baixando também a receita fiscal (o chamado multiplicador). Estes dois efeitos negativos no rendimento, fizeram com que o país importasse menos. Ao mesmo tempo, a mais baixa rentabilidade do sector não transaccionável, fez com que se deslocassem recursos (trabalhadores, capital, etc) para o sector exportador, aumentando as exportações. O efeito combinado de aumento de exportações e redução das importações, equilibrou a balança comercial, eliminando a necessidade do país como um todo acumular mais dívida. Do lado estado, a redução de despesa contribuiu para reduzir o défice, mas o impacto no sector não transaccionável fez com que a colecta de impostos também baixasse, não sendo compensada pelo aumento das importações.

Resultado final:

Receitas do Estado: 7
Despesa do Estado: 8
Saldo público: -1

Receitas dos privados: 21 (8 transferências do estado + 8 rendimentos sector não transaccionável + 5 de rendimentos de exportações)
Despesa/Consumo dos privados: 20 (7 impostos ao estado + 8 despesa com sector não transaccionável + 5 de custos com importações)
Saldo dos privados: +1

Necessidades de financiamento externo: 0 (-1 défice público +1 défice privado= Saldo da balança comercial**)

Ou seja a restrição no acesso ao crédito por parte do estado e privados, fez com que o estado reduzisse o seu défice**** e os privados passassem de uma situação deficitária para excedentária (suficiente para compensar o défice público). Repare-se que neste caso o ajustamento no consumo (ou seja, o empobrecimento) foi maior do que o ajustamento nas contas públicas, o que seria de esperar, mas que é fonte habitual de críticas. Mais do que isso, seria inevitável: o efeito atrito (o período que leva recursos a serem reciclados de empresas da economia não transaccionável para o sector exportador) faz com que tal aconteça sempre no curto prazo.
Claro que o objectivo de todos deverá ser regressar ao nível de consumo anterior, e para esse regresso há duas alternativas:

1. A defendida pela esquerda, que é a de voltar a aumentar o défice público, regressando a uma situação semelhante à da primeira imagem. Esta alternativa faria com que, através do aumento das transferências do estado, os consumidores aumentassem o consumo de bens não transaccionáveis (aumentando o seu rendimento uma segunda vez), mas também de importações, regressando o défice comercial. Esta alternativa, apesar de mais rápida nos seus efeitos, não só estaria dependente da boa-vontade do resto do Mundo para nos emprestar dinheiro, como teria eventualmente que ser invertida, com o efeito que todos conhecemos.

2. A segunda alternativa, é uma solução mais lenta e gradual de transferência de recursos desempregados (os próprios e o escasso capital que ainda existe) para o sector exportador. O aumento das exportações, aumentaria o rendimento dos portugueses permitindo maior despesa e rendimento no sector não transaccionável e, ao mesmo tempo, elevar de forma sustentada as importações.

Ou seja, poderemos voltar a aumentar o consumo de forma sustentável através do redirecionamento de recursos para a exportação ou, como defendem socialistas de esquerda e direita, através do aumento do défice do estado. Esta segunda “solução” seria um regresso ao ponto de partida, com a necessidade de novo ajustamento daqui a uns anos, com consequências ainda mais prejudiciais.

* Modelo de análise neoclássico e Keynesiano, para verem como sou uma pessoa aberta. Ignora efeitos importantes como efeitos da carga fiscal e transferências do estado nos incentivos aos agentes económicos
** Na verdade, deveria estar aqui representada a Balança de transações correntes, mas por simplificação assumi ser tudo balança comercial
*** Notem a minha abertura aos modelos de pensamento keynesianos
**** Défice verdadeiro que deve incluir compromissos com PPP, SS, SWAPs, não o défice reportado

23 comentários a “Entender a economia portuguesa*

    • Sim, já está incluida. No exemplo, o défice externo de 3 é a soma do défice público (2) e privado (1). Nesta versão simplificada, este défice reflecte-se na balança comercial (na realidade reflecte-se na balança de transações corrente, mas não valeria a pena complicar).

  1. CGP: é de mim ou no post pressupõe-se que os deficits comerciais geram dívida?
    Os deficits comerciais não geram necessariamente dívida. Quem nos vende bens aceita algo como compensação. Podem ser activos financeiros ou reais. Eventualmente, quem exporta bens para Portugal está disponível para aceitar títulos de dívida em troca, ou seja, para nos emprestar dinheiro. Neste caso, sim, contraímos uma dívida.
    A balança comercial é, tão só, a diferença entre o valor em euros do que compramos lá fora e o valor do que recebemos pelo que vendemos ao exterior.

    • Sim, TAF, este é um modelo simplificado que exclui as balanças financeira e a balança de rendimentos. É evidente que havendo défice comercial, podemos cobri-lo emitindo dívida, vendendo parte da EDP ou com os rendimentos da Jerónimo Martins na Polónia. Mas para o exemplo, adicionaria complexidade sem trazer nada de novo.

  2. Carlos,

    Talvez seja falha minha, mas da leitura do teu post pode ficar subentendido que as exportações são “boas” e as importações são “más”…
    Daí que acrescente os seguintes comentários:

    As importações são tão benéficas quanto as exportações. O que cria riqueza é o comércio internacional, sejam exportações, sejam importações.
    Não é a balança comercial a influenciar o crescimento, mas o inverso.
    O comércio internacional, não é o “culpado” nossos excessos e da nossa falta de capital.

    A dívida pública é algo muito diferente do deficit comercial, desde logo porque a primeira é financiada por impostos. Estes são coercivos, somos obrigados a paga-los.
    Ao contrário do comércio internacional, a receita fiscal não resulta de um agregado de relações individuais autónomas e voluntárias.

    Tal como a criação de riqueza não depende do consumo interno, uma acrescida procura internacional não é fonte de crescimento.
    Ou seja, para gerar riqueza é necessário haver produção e esta só é possível potenciar através do investimento que depende, por sua vez, da disponibilidade de capital acumulado em poupanças diversas.
    Não é a procura que determina a oferta. A procura só poderá ser satisfeita se precedida de produção. O rendimento advém da produção que nos permitiria trocar pelo que queremos consumir.

    Produz-se para consumir, exporta-se para importar. As exportações são o preço das importações.
    Para Portugal crescer, além de ser necessário reduzir substancialmente o âmbito do Estado, será fundamental abandonar o discurso falacioso e contraproducente de que as exportações são boas e as importações são más.

    • TAF, completamente de acordo com tudo o que dizes. O post também não o contradiz. Não há nada funcionalmente errado com importaç\oes, nem eu faço juizos morais de variáveis económicas (seria o mesmo que ajuizar a moralidade da multiplicação ou da função linear). A única coisa que tento demonstrar é que o défice público criou um défice comercial (ou melhor, um défice da balança de pagamentos) que gerou o acumular de dívida. Eventualmente, este défice tem que ser compensado pois, como dizes, exportamos para importar. E, alinhado com o que dizes, neste momento o ajustamento requere que exportemos mais para pagar importações passadas. Não há nada errado com as importações, mas se forem permanentemente superiores às exportações gerem um défice comercial que (se não tiver simetria na balança de rendimentos) contribui para o acumular de dívida.

  3. Pingback: Recomendado | O Insurgente

  4. Parece-me que há um sinal – trocado no saldo dos privados após o ajustamento. Copio aqui o parágrafo, corrigindo o sinal:
    Receitas dos privados: 21 (8 transferências do estado + 8 rendimentos sector não transaccionável + 5 de rendimentos de exportações)
    Despesa/Consumo dos privados: 20 (7 impostos ao estado + 8 despesa com sector não transaccionável + 5 de custos com importações)
    Saldo dos privados: -1

  5. O post é omisso em relação à forma como crescem as exportações , se apenas por contenção ou mesmo redução do custo unitário do factor trabalho e quais os segmentos e sectores de produção nos quais se consegue conquistar quota. A formação dos recursos internos (não se conseguindo atrair talentos ) e a assegurar fontes de financiamento adequadas são dois factores chaves, isto num quadro de zona monetária única, sem desvalorização cambial possível (cujos efeitos negativos são conhecidos).

    • Certo. Este é um modelo simplificado que não pretendia falar de todos os problemas. O crescimento do sector exportador será feito através da atracção de capital (menos impostos, menos custos de contexto, etc) ou através da reduç\ao de salários. Como o primeiro requere a diminuição da despesa pública, provavelmente continuaremos no segundo.

  6. Pingback: Toda a Gente Bate na Guida – Aventar

    • Os dados da minha fonte são referentes a 2010, sendo os mais recentes que disponibiliza. Comparando os dados da sua fonte referentes ao mesmo ano, verifico que a sua fonte dá uma razão 55:67,5.

      Parece encontramos sempre, em alguma fonte, dados para corroborar as nossas hipóteses.

  7. Isto faz-me lembrar o jogo do monopólio. Nunca questionamos de onde vem o dinheiro, como ele é criado, como está na base dos desequilíbrios que reconhecemos, responsável pela propagação de um sistema competitivo onde sobrevive sempre o mais forte. Como se o sistema não estivesse desenhado para favorecer os mais “adaptados” e não tivesse sido delineado por eles.

    Que Portugal é um mau jogador de monopólio não há dúvida, mas neste jogo ninguém ganha se não houver perdedores e é claro que Portugal é um país perdedor.

    Podemos discutir as regras e é divertido e tudo mas quando é que começamos a querer jogar outro jogo? E sim há outros.

  8. Gostaria de colocar uma pergunta ao amigo Carlos:
    O Japão tem uma divida publica de à volta de 200% do PIB que continua a ser alimentada por elevados défices publicos.
    Apesar disso, não tem nenhuma dificuldade em financiar a divida e os défices do sector publico – Como explica isto amigo Carlos?

    • Excelente questão. A dívida pública japonesa tem um correspondente de poupança na economia privada. Ao contrário de Portugal, onde tanto o estado como os privados tinham um défice financiado pelo exterior, no Japão, a dívida pública é directamente financiada pelos japoneses. Ou seja, tudo o que o estado gasta a mais, os japoneses gastam a menos, fazendo com que a dívida pública não se transforme numa dívida externa. Para que se possa comparar, a dívida pública japonesa é cerca de 215%, mas a dívida externa apenas 45% do PIB. No caso português a dívida pública é 126% do PIB, mas a dívida externa é de 230% (5 vezes mais que a japonesa). Para além disso, o Japão tem uma balança corrente saudável, fruto de um sector exportador dinâmico (só teve défices nos últimos dois anos) e uma balança de rendimentos com o exterior altamente positiva o que permite alimentar esta poupança externa
      A situação do Japão, sendo mais saudável financeiramente, é também problemática do ponto de vista económico, devido ao desvio de recursos do privado para o público, o que pode explicar, em boa parte, o fraco crescimento económico do Japão nos últimos 20 anos.

  9. Pingback: A solução crescimento e a maldita austeridade | A Montanha de Sísifo

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