Quando o nível socioeconómico deixa de influenciar as notas

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Segundo alguns comentadores, o ranking das escolas é inútil para avaliar a qualidade dos métodos de ensino e dos professores das escolas privadas versus escolas públicas. Estas objecções são levantadas pelo facto de os rankings não terem em conta o perfil socioeconómico dos alunos ou a dedicação dos pais aos estudos dos seus filhos. O primeiro argumento é o de que as escolas públicas só têm piores resultados nos rankings porque incluem alunos de meios desfavorecidos. O segundo argumento (defendido aqui pelo Miguel Boelho Moniz) é o de que existe auto-selecção, ou seja, os pais que fazem o esforço financeiro de colocar os filhos numa escola privada também deverão prestar mais atenção aos estudos dos filhos, o que fará com que estes estejam melhor preparados para os exames. Dois argumentos aparentemente válidos, mas cujo real impacto se desconhece.

A única forma de perceber se são estes os motivos da diferença nos rankings e não a qualidade de ensino seria expôr alunos de escolas privadas e públicas aos mesmos métodos de ensino e mesmos professores e avaliar os seus resultados. Se os alunos das escolas privadas continuassem a ter melhores resultados quando expostos aos mesmos métodos de ensino que os alunos das escolas públicas, então ficaria provado que não é devido à qualidade do ensino das escolas privadas que os seus alunos obtêm notas mais elevadas. Felizmente, essa análise foi feita o ano passado pelos investigadores da Universidade do Porto (via Vítor Cunha).

A Universidade do Porto recebe alunos de escolas públicas e privadas, onde são expostos aos mesmos professores e métodos de ensino. Se fosse verdade que são as condições socioeconómicas e dedicação dos pais que fazem com que os alunos das escolas privadas tenham melhores classificações, então essa vantagem deveria manter-se quando os alunos de público e privado são expostos aos mesmos métodos de ensino, como acontece na Universidade. Mas tal não é verdade: segunda a investigação, quando expostos aos mesmos métodos de ensino, os alunos das escolas públicas obtêm classificações mais altas que os das escolas privadas. Ou seja, os mesmos alunos que uns meses antes tiveram notas mais baixas nos exames nacionais que os seus colegas do ensino privado, agora conseguem tirar notas mais altas, quando em igualdade de circunstâncias no que toca a métodos de ensino. Ou, visto de outra forma, quando expostos ao mesmos métodos de ensino, a superioridade socioeconómica dos antigos alunos das privadas não lhes garante nenhuma vantagem académica, contrariando o argumento de que essa é a principal razão para as melhores notas nos exames do ensino secundário.

4 comentários a “Quando o nível socioeconómico deixa de influenciar as notas

  1. Carlos,
    Atenção que eu não acho os rankings inúteis. De modo algum. Eles espelham uma realidade que tem de ser esmiuçada para se poderem tirar conclusões “acionáveis”.
    É de enorme dificuldade estabelecer estas potenciais relações causais. Por exemplo, o estudo da UP que referes tem uma série de características que não permitem concluir taxativamente que os métodos de ensino se sobrepõem ao perfil socio-económico. (Nota que esta observação não quer dizer que eu não ache os métodos importantes. Apenas acho que é difícil estabelecer causalidade.)
    Objectivamente:
    1) Os alunos que entram na faculdade não são representativos da população estudantil de onde originam. São os melhores ou com notas mais altas.
    2) Oriundos do “tail-end” alto, os alunos universitários têm menores diferenças de capacidades naturais entre si que os do básico e secundário.
    3) Os alunos que entram na UP são desproporcionalmente oriundos de determinadas escolas da região circundante.
    4) O perfil dos professores universitários é completamente diferente dos professores do básico e secundário.
    5) Face à estatisticamente inferior qualidade do ensino público, os alunos que lhe “sobrevivem” e ingressam na faculdade tenderão à partida a ser mais “risilientes”.
    Perante isto, o melhor desempenho dos alunos do público face aos do privado nesse estudo da UP pode ser consequência de inúmeros factores, não se podendo concluir que os métodos de ensino se sobreponham ao perfil socio-económico. Correlação não é causalidade, por um lado, e o isolar de determinadas características é dificílimo.

    • Miguel, se aceitarmos que duas condições são verdadeiras:

      1) os antigos alunos de escolas privadas tenderão a ter melhores condições económicas do que antigos alunos de escolas públicas e,
      2) os antigos alunos de escolas privadas tiveram melhores notas nos exames do secundário do que os antigos alunos de escolas públicas

      então, teremos que concluir que o perfil sócio-económico das famílias não tem assim tão grande impacto na performance escolar. Isto independentemente da representatividade da amostra como referes nos pontos 1,2 e 3. Já os pontos 4 e 5 parecem-me não contradizer, antes reforçar, o argumento do post.

    • Eu não digo que o perfil sócio-económico tem grande impacto. De resto, os dados que o Vitor Cunha colocou no Blasfémias são bastante claros: A correlação é irrelevante olhando para a generalidade das escolas. (Isto é, seria preciso muito cherry picking para mostrar correlação.) Parece-me é que o estudo da UP não permite tirar essa conclusão; tal como não permite concluir que são os métodos de ensino o factor preponderante. (Nota também que no meu post original eu refiro a auto-seleção como uma hipótese. Estou inclinado a aceitá-la, não excluindo outros factores também com algum peso, à falta de outras hipóteses mais convincentes. Mas é uma working hypothesis, nada mais. Nota que a auto-seleção ela própria também não é estatisticamente independente da questão dos métodos de gestão e/ou ensino, pois a seleção feita pelos pais pode resultar da sua percepção sobre esses métodos.)
      Duas notas:
      1) Quando digo que os professores são diferentes (ponto 4), isso tem a implicação de que não podemos julgar os métodos dos professores do básico e secundário em função de estudos sobre os métodos do professores universitários. É uma questão metodológica. Quer dizer, poder podemos, mas a diferença torna a conclusão questionável.
      2) A “resiliência” dos alunos do público que são admitidos na faculdade torna-os muito diferentes do universo de partida. O seu desempenho da faculdade, especialmente num sitio tão específico como a UP, não pode servir para tirar conclusões taxativas sobre o potencial desempenho dos alunos do universo de partida (geral no básico e secundário).

  2. Pingback: O fracasso das escolas estatais e a esquizofrenia dos anti-liberais (2) | O Insurgente

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