A solução crescimento e a maldita austeridade

Como vimos anteriormente, para pagar uma dívida externa, um país precisa de equilibrar a sua balança comercial (na verdade, é mais complicado que isso, mas a introdução das restantes componentes apenas reforçariam o argumento defendido), como explicado aqui. Uma das ideias que tem sido passada pelos partidos mais à esuqerda como o PS e o CDS tem sido de que a dívida seria mais fácil de pagar se fosse permitida mais despesa pública que estimulasse a economia. A ideia de que aumentar despesa pública ajuda a reduzir a dívida é contra-intuitiva para qualquer pessoa, mas outras teorias económicas também o são, pelo que vale a pena esmiuçar um pouco mais. O raciocínio é de que, aumentando o PIB, aumenta a capacidade da economia pagar a dívida porque o rendimento aumenta. Não vou contestar aqui a ideia de que a despesa pública aumenta o PIB (na verdade pode aumentar no curto prazo, e baixar no longo prazo). Assumindo que tal é verdade, temos que analisar como se processa esse aumento de PIB. A despesa pública (seja directa ou através de transferências para funcionários públicos ou outros beneficiários) é direccionada para o sector não transacionável ou para o sector importador. Apenas a despesa no primeiro aumenta o rendimento da economia (o PIB), assumindo a existência do multiplicador keynesiano. Ou seja, despesa pública adicional, aumenta o rendimento no sector não transaccionável, mas também a conta com importações. Não tem qualquer efeito nas exportações, porque, por definição, as exportações são despesa de entidades estrangeiras. Pode até ter um efeito negativo nas exportações, em empresas que servem tanto o mercado interno como o exportador e que, aumentando a procura interna, desviam recursos da exportação para o mercado interno. Ou seja, o estímulo à economia através de despesa pública pode até fazer crescer o PIB no curto prazo, mas tem um efeito negativo na balança comercial, na poupança externa e, portanto, na capacidade de Portugal pagar a dívida. Eventualmente, qualquer estímulo teria que ser revertido, causando uma dor maior do que o benefício original.

Para percebermos melhor esta situação, imaginemos uma família, “os Súcias”, em que a mulher recebe 1000 euros por mês e o marido está desempregado. As despesas mensais são de 800 euros, mas têm uma dívida ao banco cuja mensalidade é de 400 euros. Ficam a faltar 200 euros por mês. Para resolverem o problema analisam duas soluções: a primeira é baixar as despesas de 800 para 600 euros, o que implicaria não ir de férias, cortar a televisão por cabo e deixar de tomar café fora de casa até a dívida estar paga. A outra possibilidade é o marido ir trabalhar, mas como o mercado está mau iria receber um salário baixo, bastante abaixo do que recebia antes de estar desempregado. Nenhuma das ideias agrada ao marido, que proõe uma outra solução: chama-lhe “crescimento”. O marido diz que se o problema deles é não ter rendimento suficiente para pagar a dívida, então devem simplesmente aumentar o rendimento. Ele desenha então uma solução segunda a qual ele passaria a cozinhar pratos gourmet, que a mulher pagaria a 50 euros por refeição. A 30 refeições por mês, ele ganharia 1500 euros. Já ela passaria a prestar serviços extra no quarto, pelo qual ele pagaria 50 euros. A 30 serviços extra por mês, ela ganharia 1500 euros extra. O rendimento da família subiria de 1000 para 4000 euros. Se o nosso rendimento for de 4000 euros por mês, a prestação do banco será apenas 10% do nosso rendimento!
Chegados ao fim do primeiro mês, muito satisfeitos com o seu rendimento, o casal apercebe-se que continua sem ter dinheiro para pagar ao banco. “Surpreendentemente”, continua-lhes a faltar 200 euros por mês. Mesmo assim, voltam a tentar no segundo mês, afinal de contas até gostam dos pratos gourmet e da sua nova vida sexual. No final do segundo mês, nova surpresa desagradável: ainda lhes falta mais dinheiro do que antes! A mulher, satisfeita com os jantares gourmet, passou a pedir ao marido que fizesse o mesmo ao almoço. Para conseguir pagar por esses jantares, servia uma dose extra de romance de manhã, faltando ao emprego (afinal “ganhava” mais com o marido em casa do que no trabalho fora de casa). A mulher agora ganha apenas 500 euros no seu emprego (e três mil com os seus serviços em casa) e o marido continua desempregado (mas ganha três mil euros com os seus serviços em casa). No final do mês, em vez de 200 euros, agora faltam 700 euros e a dívida está ainda maior. Sem possibilidade de continuar assim, a mulher regressa ao seu emprego full-time e ainda faz umas horas extras, o marido aceita um emprego informal nas obras recebendo abaixo do salário mínimo e cortam a televisão por cabo. Em vez de refeições gourmet, agora comem sanduiches e à noite estão tão cansados que vão imediatamente dormir. Maldita austeridade.

9 comentários a “A solução crescimento e a maldita austeridade

  1. Carlos, como escrevi há tempos num artigo, todas as semanas vou ao supermercado abastecer-me, mas as empresas de distribuição não me compram nada a mim há anos. Tenho portanto um permanente deficit comercial com esta gente. Curiosamente, pago sempre o que compro. Fico a dever algo ao Engº Azevedo ou ao Sr. Santos?

    • Absolutamente, nada. E não ficas a dever porque provavelmente tens um emprego ou uma empresa em que alguém te paga um salário ou te compra coisas, sem que tu lhes compres nada em troca. Ou seja tu “importas” o mesmo que “exportas”, daí não acumulares dívida. No dia em que começares a gastar mais no Pingo-Doce do que ganhas, “importarás” mais do que “exportarás”, e terás uma dívida a alguém (provavelmente a um banco). No futuro terás que exportar mais que importar, ou seja, terás que gastar menos no Pingo-doce do que o que ganhas, para pagar essa dívida.
      Não vejo qual é a tua questão, quando até estamos de acordo. Parece-me que não percebeste este post nem o outro. Não há nada moralmente errado com exportações ou importações. simplesmente quando há uma dívida externa, é preciso exportar mais do que importar para a pagar. Simples.

  2. Em relação à “moralidade” estamos entendidos e absolutamente de acordo!
    O que não concordo (ou não percebo..) é precisamente a seguinte afirmação: “quando há uma dívida externa, é preciso exportar mais do que importar para a pagar”.
    A nossa dívida externa significa que o valor em euros dos activos que os estrangeiros têm em Portugal é maior do que o valor em euros dos activos que nós temos lá fora. A dívida externa existe, como dizes, porque consumimos mais do que aquilo que poupamos para pagar o consumo. Mas não é o superavit da balança comercial que nos vai enriquecer para poupar o suficiente e pagar dívidas passadas. Pela mesma lógica então faríamos um “pé-de-meia” bastante jeitoso se não importássemos nada e exportássemos tudo… Ficaríamos pobres, mas com um enorme superavit da balança comercial!
    Se comprarmos mais do que vendemos ao exterior, o dinheiro que sai a mais há-de regressar por diversas formas: compras futuras dos nossos produtos (exportações) e IDE no nosso país por exemplo. O investimento traz capital par o país, muito em falta estes dias para o crescimento da economia (e conseguirmos pagar dívidas…) Ainda por cima existe uma forte correlação entre o deficit da balança comercial e o PIB. No sentido estatístico do termo, quando o deficit comercial aumenta, o PIB cresce (ou o inverso).

    • O superavite da balança comercial (e, já agora de rendimentos e capital) é precisamente o que suporta o pagamento da dívida.Para que saia dinheiro do país para pagar a dívida, é necessário que haja uma entrada líquida por outro meio. Se quiseres, pensa assim, se exportarmos mais do que importamos, os depósitos bancários aumentam, os nossos bancosreduzem o seu endividamento em relação aos bancos estrangeiros usando esses depósitos, baixando a dívida externa. Como dizes, “Se comprarmos mais do que vendemos ao exterior”, o dinheiro regressa de outra forma, sendo que a mais forma mais comum é através de empréstimos. Mutatis Mutandis, se vendermos mais do que compramos ao exterior, o dinheiro sai sob a forma de empréstimos ao estrangeiro ou abatimento à dívida.

  3. Notas adicionais: a) “dinheiro” é diferente de “riqueza”. b) como explicas correlação entre deficit comercial e crescimento PIB? c) “forma mais comum é através de empréstimos”. onde tens os dados?

    • a) certo
      b) Do PIB faz parte tanto o sector não transacionável como o transacionável. A história da família demonstra bem esta dicotomia. A família aumentou o seu PIB com aquele arranjo, apesar de ter piorado o seu “défice comercial”. Daí ser perfeitamente possível durante alguns anos aumentar PIB à conta de défices de balança comercial. Claro que quando é preciso inverter esse défice (e é-o sempre), o efeito no PIB será o oposto. O ideal é, obviamente manter balanças comerciais equilibradas no custo médio prazo, a não ser claro que seja um país com uma balança de rendimentos bastante positiva

      c) Os dados estão aqui http://pordata.pt/Portugal/Balanca+de+pagamentos+saldo+em+percentagem+do+PIB-843 . A balança de pagamentos equilibra sempre (a soma das parcelas tem que ser zero).Olhando para o período anterior a 2011 percebe-se duas coisas:

      1. A balança comercial é o factor determinante no saldo da balança corrente. A balança de serviços, rendimentos transferências correntes são bastante pequenas. Por exemplo, em 2009 o saldo da balança comercial foi de -10,6% do PIB e da balança corrente de 10,9. Ou seja, o dinheiro enviado por via do défice da balança comercial não regressa nem por via de serviços, nem por via de rendimentos de capital nem por transferências correntes.
      2. Também não é através da balança de capital (0,8% em 2009) que esse ajuste é feito.
      3. A balança de pagamentos equilibra o défice na balança comercial através da balança financeira. Das componentes da balança financeira, o IDE é irrelevante (apenas 0,8%). As componentes que equilibram a balança de pagamentos são “investimento de carteira” e “outro investimento”, ou seja compra de títulos, ie, obrigações do tesouro e títulos de dívida bancária. For more information http://www.fep.up.pt/disciplinas/1e201/Slides%20aulas%202011-12/CAP2_2%203%204out.pdf

  4. c) “forma mais comum é através de empréstimos”. onde tens os dados?

    Se gastar mais dinheiro do que recebe do salário, o que pode fazer a diferença (se continuar a ter o mesmo saldo monetário)? São precisos dados?

  5. A dívida resulta como sabemos de consumirmos mais do que aquilo que poupamos. Mas o problema coloca-se sejam as compras feitas em Portugal, seja por via das importações. Não é o comércio internacional, e em particular as importações, que geram esses nossos excessos e a nossa falta de capital. Temos é de poupar mais, consumindo menos ou pelo menos mais barato, e ser mais produtivos. A tudo isto as importações ajudam. Aliás, parte significativa do valor das nossas exportações têm incorporado o valor de importações de consumos intermédios.

    • Não, a dívida externa resulta de importarmos mais do que exportamos. Isto não é uma opinião, é um facto matemático.

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