PISA: separar o bebé da água do banho

Não sendo um especialista em educação, há algo que me fascina na evolução dos resultados nos testes de PISA dos alunos portugueses. Atentemos em baixo à forma como evoluiram os resultados dos alunos portugueses nas três disciplinas consideradas:

PISA

O que fica deste gráfico é que toda a evolução nos resultados foi indiferenciada e se concentrou em num período apenas: entre 2006 a 2009. Não existiu uma melhoria progressiva ou concentrada numa ou noutra disciplina, como seria de esperar de uma alteração de programas. Pelo contrário, nesse período de tempo os resultados melhoraram em todas as disciplinas, ao mesmo tempo e em proporções muito semelhantes. Para quem por motivos profissionais esteja habituado a analisar séries temporais, a primeira ideia que surge ao observar uma evolução deste género é a de uma alteração no processo de amostragem. Uma alteração do processo de amostragem criaria uma evolução com todos os ingredientes desta: one-off, concentrada no tempo e indiscriminada entre as diferentes séries. No entanto, não havendo nenhuma indicação nesse sentido, resta-me concluir por uma segunda alternativas: algo aconteceu entre 2006 e 2009 no sistema educativo português como um todo que levou a esta melhoria multi-disciplinar e concentrada no tempo. Apesar de toda a discussão em volta destes números, ainda ninguém conseguiu identificar de forma satisfatória exactamente o que aconteceu nesse curto período de tempo e que justificou uma subida repentina nos resultados.

Para aqueles que utilizam estes resultados como uma forma de validar o “Eduquês”, fica sempre a questão de perceber porque é que o “Eduquês”, estando já há vários anos entranhado no sistema de ensino português, não teve resultados antes de 2006. Curiosamente o livro de Nuno Crato, “O Eduquês em discurso directo” foi lançado precisamente em 2006, criticando anos de uma política de educação que, até aquela altura, tinha mantido o resultado dos alunos portugueses bem abaixo da média da OCDE. Por isto também é importante entender o que se passou entre 2006 e 2009 e que contribuiu para a melhoria do resultados dos exames: aprofundámos ou afastamo-nos do modelo do Eduquês? Importante perceber para garantirmos que não mantemos a água suja do banho, apenas porque o bebé lá está dentro.

3 comentários a “PISA: separar o bebé da água do banho

  1. Boa tarde,
    Da análise dos numeros, concordo com a sua “suspeita” na alteração no processo de amostragem… que existiu. Subtilmente.
    A segunda “boa” explicação é um pouco mais rebuscada e necessita de ser confimada a partir dos dados “brutos”… mas tenho a forte suspeita que nada terá a ver com a Escola, Eduquês, Programas, ou outra tretologia desse universo… Tem apenas relação com algo que aconteceu na década anterior, – nasceram- estes alunos são os filhos da geração que mais formação académica alcançou, e sabe-se (há vários estudos), que os pais são o factor mais determinante no sucesso dos filhos.
    Este deve ser um dos raros casos onde a correlação entre o nivel de formação dos pais e os resultados dos filhos pode ser confundida (legitimanente) com causa-efeito.

  2. “e sabe-se (há vários estudos), que os pais são o factor mais determinante no sucesso dos filhos.”

    Sabe-se? Penso que muitos estudos dizem é que são os “pares” (como colegas de escola) – mas pronto, se estivermos a falar, não de um jovem especifico, mas de uma geração, reconheço que o “peer efect” não explica nada (já que os “pares” de uma geração são a própria geração).

  3. De qualquer, maneira, todas as gerações são “a geração que mais formação académica alcançou”, logo os alunos do secundário são sempre “os filhos da geração que mais formação académica alcançou”, pelo que não me parece que seja por aí.

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