Inflexibilidade nominal

Exemplo 1:
Tribunal Constitucional rejeita descidas de 10% nas pensões na crise de 2010-13, via queda nominal
Tribunal Constitucional não impede descidas nas pensões superiores a 40% na crise de 1981-83, via inflação, permitindo um ajuste mais rápido da economia

Exemplo 2:
Descida dos salários da função pública entre 2010 e 2013 em termos reais devido a:
Descidas nominais aceites politicamente: 5%
Descida via inflação: 7,4%

Exemplo 3:
Evolução real do salário mínimo:
2010-13: -5%, via inflação, incluindo aumentos nominais.
1981-84: -32% via inflação, incluindo aumentos nominais.

Exemplo 4:
Pequeno accionista recusa-se a vender as acções de uma empresa até que o preço volte a atingir o mesmo nível de quando as comprou. Questionado sobre se compraria acções da mesma empresa se não as tivesse, mas possuísse o seu valor actual em dinheiro, responde que não.

Exemplo 5:
Menu costs

Exemplo 6:
Perante quedas reais de produtividade, empresas encontram menor conflitualidade laboral mantendo salários nominais em ambiente inflacionário do que baixá-los nominalmente em ambiente deflacionário, independentemente do resultado final em termos de poder de compra para o trabalhador

O Doutor Bambo

O doente está com cancro, diagnosticado tarde e más horas. O paciente não quis saber de tratamento até os sintomas se fazerem sentir com força. O tratamento teve que começar à bruta, quando o doente desmaiou a caminho do hospital. Desde essa altura, perdeu o cabelo todo, deixou de sentir a mão esquerda e anda agarrado às máquinas. É difícil distinguir o que são os efeitos do tratamento dos efeitos da doença não tratada. Não é certo que sobreviva.
A dona Fátima organiza um debate. Para alimentar o debate, monta-se um desfile de familiares do doente. Os familiares estão tristes por o doente já não parecer a mesma pessoa, pela deterioração do seu estado de saúde e da sua capacidade física. O filho queixa-se que a mesada baixou, o irmão que já não tem um amigo para ir para os copos e a mulher de ter que arcar com todas as responsabilidades domésticas. Todos eles concluem o mesmo: gostavam bastante mais do doente antes dele ter desmaiado à porta do hospital e começado o tratamento. A culpa, dizem, é dos médicos que nos dias antes do tratamento ele ainda ia para os copos e ajudava lá em casa. A dona Fátima convida para o debate um médico e o Dr Bambo. O médico é insultado, culpado pela deterioração das capacidades físicas do doente, mas a única resposta que pode dar é de que a alternativa é deixar o doente morrer. O médico sabe que, mesmo com o tratamento, o doente pode acabar por morrer e ele arcar com as culpas, mas prefere tentar. Do outro lado, o Dr Bambo ouve e simpatiza com as pessoas, está do seu lado. Segundo o Dr Bambo, retirar o doente do convívio da família, é frio e desumano. O Dr Bambo diz que é possível curar o doente sem o obrigar a passar pelas dores do tratamento. O Dr Bambo acredita no efeito do pensamento positivo, que se o doente voltar para os copos com os amigos, o cancro curar-se-à por si mesmo. Um chá de asas de morcego teria bastado, diz ele, perante o aplauso da família. A família gosta do Dr Bambo. O Dr Bambo é um covarde irresponsável.

O peru

turkey-bird-animal_coultj0062sComo o Natal é quando o homem quiser, hoje falo sobre o peru de Natal no Diário Económico:

Dia 24 de Dezembro: durante toda a sua vida, o peru viu o dono trazer-lhe comida diariamente. Sem motivos para desconfiar, nunca o perú se sentiu tão confiante (e tão gordo) como naquele dia. Foi mais ou menos neste estado que deixei o País quando escolhi emigrar em 2007.

(Resto do artigo aqui)

A boa recessão

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Estávamos em 2009, período pós-falência do Lehman Brothers e do rebentar da bolha imobiliária nos EUA. Um grupo de amigos almoça num restaurante de praia no Dubai. Um deles recebe um telefonema com uma dica sobre um empreendimento prestes a entrar em pré-lançamento. Empreendimentos em pré-lançamento consistiam em terrenos vazios com projecto aprovado, mas cujos edifícios só estariam prontos dentro de 3 ou 4 anos. Como em Portugal, os espaços nestes edifícios eram vendidos com desconto face a projectos terminados. Essa pessoa pergunta o preço por metro quadrado e reserva de imediato três apartamentos. Comunica à mesa a oportunidade e reserva mais cinco para os amigos. Um telefonema ao banco e passado alguns minutos o contacto na imobiliária já teria recebido a garantia bancária para a entrada e para o empréstimo. Apesar de terem acabado de contrair uma dívida de várias centenas de milhares de euros, abandonam o restaurante com a mesma tranquilidade de sempre. Uma excentricidade de classe alta? Não: era uma situação normal de uma classe média em ascensão. Provavelmente, quando se encontrassem outra vez no próximo fim-de-semana já teriam vendido os apartamentos comprados naquele dia. Mesmo descontando a comissão do banco e da imobiliária, teriam feito um bom negócio vendendo a alguém que não recebeu a dica tão cedo. A rotação do imobiliário criava tanto negócio para as imobiliárias que existiam quase tantas imobiliárias com empreendimentos. Trabalhadores qualificados abdicavam dos seus empregos para abrir agências imobiliárias. Porteiros do subcontinente Indiano, com salários de 200 euros, faziam 2 mil por facilitarem transações e darem dicas de apartamentos à venda. Apesar de haver muitas, as agências imobiliárias tinhamfilas de espera de investidores com poucos contactos, mas com vontade de entrar no negócio.

O rebentar da bolha imobiliária nos EUA e a falência do Lehman Brothers apenas reforçou a convicção de que o mercado imobiliário no Dubai era diferente. Afinal, se tinha resistido ao descalabrado financeiro internacional, resistiria a tudo. A noite, no entanto, contava-nos uma história diferente. Nas zonas mais ocupadas da cidade, não mais do que 20% ou 30% das luzes nos prédios estavam acesas. Nas zonas mais remotas, onde ainda se iam vendendo apartamentos em plano, os edifícios acabados estavam às escuras. “Isto é malta que sai muito à noite”, diziam os investidores mais crentes. A verdade era, porém, diferente. Muitos apartamentos acabados nunca chegavam a ser ocupados. Os donos não os compravam para morar e como não os mantinham mais do que algumas semanas antes de os venderem, não se preocupavam em alugá-los. O parque habitacional da cidade ultrapassava bastante a população e muito mais estava planeado. Estavam a ser construidos apartamentos que fundamentalmente não geravam qualquer benefício económico. Recursos e mão-de-obra estavam a ser usados sem gerar qualquer benefício. Eventualmente, a economia teria que regressar aos fundamentais.

Eis que chega o Verão de 2009. O Verão era tendencialmente um período de paragem no mercado. Como muitos investidores saíam de férias para a Europa para escapar aos 40 graus do Dubai, o número de transações desacelerava. Nesse Verão, congelou. E Setembro não trouxe boas notícias. A bolha tinha rebentado. Ao contrários das expectativas dos investidores o governo, atormentado pela dívida das próprias empresas, não interveio para salvar o mercado imobiliário. Os investidores imobiliários mais endividados abandonaram o país, deixando para trás as dívidas e o risco de cadeia. Muitas construções em plano não chegaram a concretizar-se. Os investidores com casas acabadas, perante a incapacidade de as venderem, decidiram alugá-las. O mercado ficou inundado de imóveis para aluguer. Num ano, os preços caíram 60%. A saída do país de investidores, o desemprego de funcionários de imobiliárias e do sector da construção reduziu a procura de habitação, o que por sua vez baixava ainda mais o preço das casas. Era aquilo que em Portugal alguns chamariam de “espiral recessiva”. Mas esta espiral recessiva tinha um bom motivo para acontecer: era preciso liquidar a bolha e deixar a economia regressar aos seus fundamentais.

Isso aconteceu de forma bem visível. Embora os números oficiais não o digam, a economia do Dubai terá caído mais de 10% entre 2009 e 2010. Foi uma queda repentina e visível. Visível no trânsito, nos centros comerciais e na facilidade com que se conseguiam reservas em restaurantes à sexta-feira à noite. Em 2011, a economia já crescia, onde deveria crescer: no sector transaccionável. O governo do Dubai recusou-se a subir impostos para pagar as dívidas das empresas públicas o que reforçou a confiança das empresas de serviços que se instalam no Dubai para servir os mercados emergentes. Com a queda das rendas e o desemprego no sector imobiliário, estas empresas beneficiaram ainda de custos de trabalho mais baixos. No passado, o crescimento de algumas empresas era sufocado pelo facto de os trabalhadores exigirem salários altos para poderem pagar as rendas inflacionadas pela bolha. Os espaços comerciais também ficaram mais baratos, atraindo ainda mais empresas e beneficiando a expansão das existentes. As lojas de imobiliário nos rés-do-chão foram substituidas por mini-mercados e lojas diversas.

O governo do Dubai poderia ter evitado a queda abrupta do sector imobiliário em 2009-10, bastaria ter lançado alguns impostos e utilizar essa receita para continuar a alimentar o sector. Provavelmente, a queda da economia em 2009-10 teria sido inferior, mas estaria a apoiar um sector cujos fundamentais económicos revelavam estar sobredimensionado, limitando o crescimento do sector dos serviços. Se o tivesse feito, a queda não teria sido tão abrupta, mas provavelmente a economia ainda estaria a cair, porque não teria sido apenas o sector sobredimensionado a cair, mas também nos sectores cujos impostos estariam a subsidiar a morte lenta do imobiliário. A recessão de 2009-10 era necessária, porque era necessário liquidar uma economia e um sector que, apesar de ter enriquecido alguns, apenas criava riqueza no papel, nas estatísticas do PIB.

Chegados a 2013, e com um crescimento constante do sector transacionável, observa-se um efeito interessante: os preços do imobiliário estão muito próximos dos de 2009. Desta vez alimentados por uma economia forte: as luzes acesas à noite confirmam-no.

Resumo político do ano

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O Primeiro-ministro e o seu tecnocrata ministro das finanças, a pedido do FMI, lançaram sobre o país um conjunto de medidas de austeridade quase sempre acompanhadas de declarações que são um bom resumo da crise.
O primeiro-ministro foi rápido a identificar a solução afirmando que “Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”. A troco do necessário empréstimo, o governo cortou os salários da função pública, subiu impostos, congelou as contratações e o investimento público. Perante as críticas, ele defendendeu a austeridade como “dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores”.
A perda de poder de compra dos trabalhadores sem precedentes gerou uma onda de protestos e greves organizadas pela CGTP. O primeiro-ministro acusou então a CGTP de concentrar-se “em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar”. Quando começaram a faltar aliados internos, o primeiro-ministro foi rápido em relembrar os aliados externos afirmando que “Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo”.
Depois de um período de violento ajustamento de 2 anos, a crise passou. Os 5 anos seguintes foram o período de maior crescimento económico de Portugal em democracia. Os leitores mais atentos estarão agora a questionar-se do porquê da utilização do pretérito perfeito neste último parágrafo. O motivo é simples: o ano de que trata o artigo não é 2012, mas 1983, e o primeiro-ministro citado não é Passos Coelho, mas Mário Soares.