Um breve resumo do campeonato europeu de ping-pong

No Europeu Feminino de Ping-Pong que terminou a semana passada, a medalha de ouro foi para a sueca Fen Li, que bateu a alemã Xiaona Xan na final. A portuguesa Yu Fu, após derrotar a holandesa Jiao Li nos quartos de final, ficou-se pelas meias-finais perdendo com a vencedora do torneio, a sueca Fen Li. Na outra meia-final, Xiaona Xan venceu a compatriota alemã Ying Han. As jogadoras dizem-se ansiosas por participar no próximo Mundial em 2015 onde poderão, finalmente, jogar ao mais alto nível contra jogadoras chinesas. (resultados completos aqui)

Debt ceiling quizz

The fact that we are here today to debate raising America’s debt limit is a sign of leadership failure. It is a sign that the U.S. Government can’t pay its own bills. It is a sign that we now depend on ongoing financial assistance from foreign countries to finance our Government’s reckless fiscal policies. Over the past 5 years, our federal debt has increased by $3.5 trillion to $8.6 trillion. That is ‘‘trillion’’ with a ‘‘T.’’ That is money that we have borrowed from the Social Security trust fund, borrowed from China and Japan, borrowed from American taxpayers. And over the next 5 years, between now and 2011, the President’s budget will increase the debt by almost another $3.5 trillion.
Increasing America’s debt weakens us domestically and internationally. Leadership means that ‘‘the buck stops here.’’ Instead, Washington is shifting the burden of bad choices today onto the backs of our children and grandchildren. America has a debt problem and a failure of leadership. Americans deserve better.

Quem disse isto?

1. Um senador republicano apoiado pelo Tea Party, nos dias anteriores ao aumento do debt ceiling para 16,7 biliões de dólares em 2013
2. Barack Obama, senador Democrata pelo Illinois em 2006, nos dias anteriors ao aumento do debt ceiling para 8,9 billiões de dólares em 2006

Resposta

Leitura nacional

Estando quase encerradas as contagens, chegou a hora de fazer algumas contas. José António Seguro já veio proclamar uma vitória retumbante do PS e veio falar na inevitável leitura nacional dos resultados. Façamos então a leitura nacional dos resultados usando a melhor ferramenta para isso: os números.

Comecemos pela distribuição de votos nas Câmaras Municipais:

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A CDU foi o grande vencedor da noite, aumentando a % de votos em 17,9%, enquanto que a coligação de governo e Bloco de Esquerda perderam 13,2% e 16,7% respectivamente. Note-se que o PS, após dois anos da oposição mais fácil que um partido pode fazer, apenas ganhou 1,4% (0,5 pontos percentuais). Em relação aos partidos de governo, uma perda de 13,2%, ou 5,7 pontos percentuais, é significante mas mesmo assim menos do que se esperaria para partidos de governo nas actuais condições políticas e económicas. Mas estes números escondem uma outra realidade: para fazermos de facto uma leitura nacional há que eliminar o efeito da má gestão local da escolha dos candidatos autárquicos do PSD. Os votos perdidos no Porto, Gaia e Sintra para grupos de cidadãos estão mais relacionados com a punição dos eleitores às fracas escolhas de candidatos do que propriamente uma reacção às políticas do governo. Rui Moreira, por exemplo, fez uma campanha ideologicamente mais próxima do governo do que o próprio candidato do PSD. É claramente um candidato da área política dos partidos de governo, apesar de não se terem candidatado por nenhum deles. Em Gaia e Sintra, ambos os candidatos de movimentos independentes estão ligados ao PSD local. Somados os votos dos grupos de cidadãos de Porto, Gaia e Sintra ligados a facções do PSD locais, temos a seguinte imagem:

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Eliminado este efeito, a % de votos nos partidos da coligação governamental sobe para 39,7%, apenas 3.5 pontos percentuais abaixo dos resultados de 2013. Note-se que chegam até a ultrapassar os votos no PS. A leitura nacional começa a ficar negra para o PS. Mas é ainda mais negra para o PS de Seguro. O maior concelho do país, Lisboa, foi ganho pelo representante dos seus opositores internos, contribuindo em larga margem para o aumento na % de votos a nível nacional. Excluindo Lisboa, o cenário é este:

Distribuicaonac2

Dois anos de austeridade depois, tudo o que o PS de Seguro tem para mostrar são uns míseros 0,2 pontos percentuais de aumento no número de votos. Mas há mais más notícias para o PS: a Madeira. Misturado nos resultados do PSD está o caso, bastante excepcional, da Madeira. Aí dificilmente se poderá argumentar que os eleitores estão a castigar o governo nacional. O resultado da votação é um sinal claro do desejo de mudança ao nível regional. Do ponto de vista ideológico, Alberto João Jardim está até bastante mais próximo do PS do que do actual PSD. Se também excluirmos a Madeira da imagem, esta é a distribuição de votos:

Distribuicaonac3

Dois anos de austeridade depois, excluindo a má gestão local de candidatos do PSD, o castigo dos eleitores a Alberto João Jardim e o efeito António Costa, Seguro não tem nada para mostrar. A área política dos partidos de governo perde apenas 2,7 pontos percentuais nos votos fora de Lisboa e Madeira. O PS de Seguro até cai ligeiramente.

Mas há uma última escapatória para Seguro que é não existir qualquer leitura nacional para estes resultados. Os eleitores escolhem as melhores pessoas para as câmaras municipais, independentemente do seu partido ou das políticas do governo central. Felizmente para António José Seguro é o cenário mais plausível.

(Nota adicional: percentagens excluem brancos e nulos do total)

País de brandos contribuintes

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Fica aqui na íntegra o meu artigo de ontem no Diário Económico (só disponível na versão em papel) na secção Portugal visto de fora: “Um país de brandos contribuintes”:

“Um país de brandos costumes”: a expressão tendencialmente elogiosa, torna-se num dos maiores defeitos quando falamos da atitude dos contribuintes portugueses. Portugal é um país de contribuintes pouco exigentes que, apesar de financiarem 85-90% da despesa do estado, praticamente não fazem ouvir a sua voz na discussão pública. Para além da ausência de disciplina governativa que esta atitude permite, há um outro risco nesta situação: o de os contribuintes sem voz acabarem por se exprimir com os pés, abandonando o país, esvaziando-o do capital e potencial humano necessário para crescer.
O orçamento de estado tem duas fontes principais de financiamento: os contribuintes (através das receitas fiscais) e os credores (através do défice). Os credores são financiadores relativamente exigentes: pedem retorno e não hesitam em impôr reformas ao estado de cada vez que esse retorno está em risco. Apesar de apenas contribuírem com cerca de 10%-15% do orçamento de estado, foram os credores que conduziram aos principais momentos de reforma do estado dos últimos 40 anos.
Já os contribuintes têm sido mais mansos. Desde 1974 a percentagem da riqueza nacional absorvida por impostos mais do que duplicou. Todos os cortes de impostos relevantes foram temporários, mas os aumentos de impostos anunciados como temporários (como quando a taxa máxima de IVA subiu de 17% para 19%) acabaram por se tornar permanentes e até agravados (o IVA já vai em 23%). Apesar disso, a esmagadora maioria dos protestos contra políticas governamentais acontece a propósito de cortes de despesa. A excepção recente a esta regra, os protestos contra o aumento da TSU, estiveram mais relacionados com o carácter redistributivo da medida do que com o aumento de impostos em si que veio a acontecer de qualquer forma via IRS.
Uma das razões para este fenómeno de participação política é o facto de os beneficiários da despesa pública estarem melhor organizados do que os contribuintes. Os contribuintes estão longe de ter a capacidade de mobilização e influência que os sindicatos da função pública e outros lóbis pela despesa têm. Uma segunda razão é o facto de o sistema fiscal ser desenhado de forma a que o contribuinte médio não sinta o peso dos impostos que paga: a chamada anestesia fiscal. A anestesia fiscal é aplicada de várias formas. A primeira é escondendo o imposto pago, como acontece com o IVA ou o ISP, incorporando-o no preço final do produto. A segunda forma é a de obrigar terceiros a pagar o imposto, como acontece com o IRS. O IRS é um imposto sobre os trabalhadores, mas muitos daqueles que o pagam mal chegam a aperceber-se que existe. A maioria dos trabalhadores relaciona o IRS mais com a memória positiva do reembolso a meio do ano do que com o pagamento mensal efectuado pela sua empresa, mas subtraído do seu salário. O terceiro mecanismo é o de desumanizar o imposto, taxando entidades colectivas, como no caso do IRC. Claro que, na realidade, todos os impostos são pagos por pessoas de carne e osso; no caso do IRC por aqueles que beneficiam da existência da empresa: os seus accionistas, trabalhadores e clientes.
Desde 2011, Portugal tem sido sujeito a um conjunto de reformas que, apesar de manifestamente insuficientes, têm sido importantes no reequilíbrio e sustentabilidade da economia. Estas reformas não tiveram origem na ideologia dos partidos de governo (ambos profundamente estatistas) nem na pressão do eleitorado, mas nos credores internacionais. Se os credores, que apenas financiam 10-15% do orçamento de estado, conseguem ter este tipo de influência nas políticas públicas, não será difícil de imaginar o impacto que contribuintes informados e mobilizados poderiam ter se rejeitassem continuar a financiar o desperdício nas contas públicas. Nenhum interveniente político (governo, membro da oposição ou, passe a redundância, juiz do Tribunal Constitucional) seria capaz de enfrentar uma força desta dimensão.

Parabéns, menos 2 mil funcionários públicos!

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Paulo Portas irá negociar com a troika o aumento do défice de 2014 de 4,0% para 4,5%. Seguro quer mais. Antes de congratular Paulo Portas pelos 0,5% adicionais de défice acordados com a Troika, ou de aplaudir Seguro quando ele vier pedir 1%, convém perceber quais os custos deste feito. Cálculos por alto: os 0,5% de défice correspondem a mil milhões de Euros. Ao custo de mercado da dívida pública portuguesa, isto serão cerca de 70 milhões em juros por ano. Isto corresponde ao salário de mais ou menos 2000 funcionários públicos. É o número de funcionários públicos que terão que ser despedidos para nos próximos anos para pagar por este tremendo “feito” da ala esquerda do arco da governabilidade.

O peru

turkey-bird-animal_coultj0062sComo o Natal é quando o homem quiser, hoje falo sobre o peru de Natal no Diário Económico:

Dia 24 de Dezembro: durante toda a sua vida, o peru viu o dono trazer-lhe comida diariamente. Sem motivos para desconfiar, nunca o perú se sentiu tão confiante (e tão gordo) como naquele dia. Foi mais ou menos neste estado que deixei o País quando escolhi emigrar em 2007.

(Resto do artigo aqui)

A galinha, o ovo, os impostos e a despesa

chicken-and-egg Nos últimos tempos, pelo Blasfémias e nas redes sociais, o Vítor Cunha, o João Miranda e o Luis Rocha têm feito a defesa afincada da subida do IVA na restauração implementada o ano passado pelo actual governo. São dois os motivos apontados para tal defesa: um real mas insuficiente (a distorção económica) e outro falso (o de que para haver cortes de impostos é necessário cortar despesa primeiro).

Comecemos pelo primeiro. A Economia é a ciência que trata a alocação de recursos e não é por acaso que tal acontece: qualquer distorção na alocação de recursos tem efeito no bem estar e crescimento económico. O argumento válido é que IVAs diferenciados são um factor de distorção da alocação de recursos dentro da economia privada. Este argumento, sendo verdadeiro, é fraco por vários motivos. O primeiro grande motivo pelo qual o argumento é fraco é o facto de a grande distorção na economia portuguesa não ser entre os diferentes sectores privados, mas entre estes e o sector público. Qualquer descida sectorial do IVA distorcerá a economia privada, mas ajudará a combater a monstruosa distorção entre economia privada e sector público. O segundo motivo pelo qual o argumento é fraco é o facto de não ser apenas o IVA a provocar este tipo de distorção. A economia privada sofre vários custos indirectos causados pelo estado, nomeadamente através de regulamentos e burocracias. Por exemplo, a ASAE é uma fonte de distorção da economia privada por impôr mais custos ao funcionamento de restaurantes do que de livrarias. Será complicado quantificar, mas até pode ser que, inadvertidamente, a taxa reduzida do IVA na restauração corrija a distorção causada pela regulamentação. Não sei se será assim, mas dificilmente alguém poderá provar que não seja. Finalmente, mesmo se o argumento fosse forte, a posição liberal, e por definição inteligente, aqui seria a de nivelar pelo nível mais baixo de imposto, ou então por um nível intermédio. E é aqui que normalmente surge o segundo argumento: não é possível baixar impostos sem primeiro reduzir despesa.

Este segundo argumento normalmente leva a discussões do tipo do ovo e da galinha. O que é preciso baixar primeiro para reduzir a dimensão do estado: os impostos ou a despesa? Para entendermos isso é preciso entender como decorre o processo de planeamento orçamental. Em termos muito simples, no processo de planeamento orçamental, o ministro das finanças faz uma previsão de receita fiscal para o ano, adiciona-lhe a capacidade de financiamento (o défice possível) e baseado nisso define qual a despesa de cada ministério. Em tempos bons, cada ministro irá tentar aumentar ao máximo o seu orçamentoç em tempos maus tentará que o seu orçamento seja reduzido o mínimo possível. Nenhum ministro tem incentivos a pedir menos dinheiro do que aquele que lhe é alocado, todos têm incentivos a pedir mais. O ministro da educação sabe que terá mais problemas se tentar reduzir o número de professores e o ministro da saúde sabe que terá problemas se não aumantar o salário dos enfermeiros. São cortes de despesas que levam ao fim de carreiras políticas e causam perdas de eleições. Por isso mesmo, cada ministro indivdualmente tenderá a sobreestimar a importância do seu ministério e tentar aumentar o seu orçamento. Nenhum ministro tem incentivos a reduzir despesa na perspectiva de poder reduzir impostos num ano futuro. Havendo a possibilidade, em cada ano, de recorrer a dívida ou a impostos para cobrir despesa, haverá pressão para que tal aconteceça. Um ministro só reduzirá despesa se não houver receita fiscal ou dívida que cubra essa despesa. Não é por acaso que as únicas quedas de despesa pública aconteceram em períodos de crise económica, quando baixa o saque fiscal ou os credores internacionais deixam de estar disponíveis para emprestar. Nenhum governo jamais baixou despesa na perspectiva de baixar impostos no futuro. Nenhum. Nunca aconteceu, nunca acontecerá em democracia. A única forma de reduzir a dimensão do estado em democracia é colocar no centro do debate público a redução de impostos e aproveitar cada abébia populista que daí advenha (como a da redução do IVA da restauração). As oportunidades de redução da carga fiscal e o peso do estado são tão escassas, que é um erro desperdiçar qualquer uma que seja. Poderão contra-argumentar que uma redução agora, apenas irá gerar um aumento no futuro. Tal pode ser verdade, mas se esse aumento futuro for politica e economicamente mais sustentável que um corte de despesa, então acontecerá de qualquer forma. Cabe à opinião pública, nós, fazer com que não seja assim no futuro, travando assim o aumento de despesa que eles suportarão. Defender que esse corte de impostos não ocorra no presente é um mau princípio para o defender no futuro.

É característica dos socialistas defender um estado grande com contas deficitárias. Mas defender um estado grande com contas equilibradas não torna ninguém liberal por oposição, apenas os torna estatistas inteligentes.

O futuro do cheque-ensino em Portugal

Dezembro 2013 – Governo aprova cheque-ensino para ano lectivo 2014/2015.

Setembro 2014 – Jornal Público faz inquérito em zonas pobres da cidade de Lisboa sobre os benefícios do cheque-ensino. 97% das pessoas respondem “Cheque quê?!?”.

Dezembro 2014 – Governo lança grande campanha informativa sobre cheque-ensino

Agosto de 2015 – Colégio Luso-Francês anuncia que não aceita mais inscrições para o ano lectivo 2014/2015. Os 3 líderes do Bloco de Esquerda denunciam critérios de escolha das matrículas: “se é com dinheiros públicos, matrículas devem ser por concurso público”.

Setembro de 2015 – Milhares de alunos excluidos das matrículas nos melhores colégios privados ainda sem Escola para ano lectivo

Novembro de 2015 – Governo anuncia que colégios privados beneficiários do cheque-ensino não devem poder fazer selecção de alunos

Março de 2016 – Abrem as inscrições no colégio Valsassina. Confrontos à porta do colégio fazem 5 feridos.

Junho de 2016 – Acampamento cigano em frente ao Colégio Moderno duas semanas antes das inscrições.

Julho de 2016 – Colégio Moderno abre filial em Badajoz.

Agosto de 2016 – Ribadouro aumenta preços para níveis anteriores ao cheque-ensino. Os quatro co-líderes dos Bloco de Esquerda protestam.

Setembro de 2016 – Propinas dos colégios privados beneficiários do cheque-ensino passam a ser reguladas.

Outubro de 2016 – Notícias de escolas públicas abandonadas e alunos sem lugar na zona de residência fazem com que governo anuncie que a partir de 2016 as matrículas em todas as escolas serão realizadas a partir de um sistema centralizado.

Janeiro de 2017 – Regulação dos preços fazem com que colégios deixem de investir em infraestrutura. Ministério da Educação sem dinheiro para subsidiar investimentos resolve lançar Parcerias Público Privadas na Educação PPPEs.

Fevereiro de 2017 – Paulo Campos, novo ministro da Educação, garante aos colégios que investirem em infraestruturas um aumento no valor do cheque-ensino em 30% todos os anos. Estão lançadas as PPPEs. Candeeiros Siza Vieira fazem parte do caderno de encargos.

Julho de 2017 – Sistema de matrículas centralizado com atrasos.

Setembro de 2017 – Sistema de Matrículas centralizado é inaugurado.

Dezembro de 2017 – Começa o ano lectivo a tempo das férias de Natal

Fevereiro de 2018 – José Gomes Ferreira denuncia as PPPEs e lança livro “Ouçam-me: eu é que percebo disto”

Abril de 2018 – Pentágono de líderes do Bloco de Esquerda defende o fim das PPPEs e a nacionalização de todos os colégios privados.

Junho de 2018 – Perante incumprimento das obrigações das PPPEs, colégios privados vão à falência. Caixa Geral de Depósitos compra colégios em liquidação que são formalmente integrados no sistema de ensino público.

Perigo iminente

migueltiago
Ao contrário do resto do Mundo ocidental, Portugal é um bom local para ser comunista. Talvez porque, à excepção do período 74-75, Portugal tem estado sempre distante do perigo comunista. Chegavam-nos histórias da União Soviética, mas que eram demasiado longínquas para criar as defesas em relação ao comunismo que foram criadas noutras zonas da Europa. Os comunistas, ao contrário dos seu congéneres totalitários de extrema direita, fazem parte do sistema. A ausência prolongada de cargos governativos permitiu-lhes ainda excluir-se de qualquer decisão difícil: os comunistas são sempre o polícia bom do parlamento que exige salários e pensões mais altas, mais redistribuição, mais emprego público, mais dinheiro para a cultura e cada um dos lóbis eleitorais, mas com a possibilidade de se esconder na altura de assumir os custos dessas exigências.
Eles podem sobreviver como partido longe do governo porque tal não os afasta dos tachos necessários à sobrevivência no sistema partidário. Os comunistas beneficiam do tipo de tachos que qualquer partido aspiraria a ter: tachos permanentes não sujeitos ao escrutínio democrático. São os tachos nos sindicatos, em empresas Municipais e associações de “cidadãos” (tudo pago com dinheiro público). Eles não têm votos, mas com uma presença desproporcional nos meios de comunicação social influenciam as decisões políticas ao manipular a opinião pública e, acima de tudo, ao manipular a percepção do que é a opinião pública. Eles não têm votos, mas, tal como no PREC, dominam as manifestações de rua, fazendo crer a muitos (até aos partidos rivais) que a opinião pública quer aquilo que eles acham que deveria querer. Os partidos corruptos do centro farão sempre aquilo que acharem que lhes garante mais votos e são os comunistas, através do domínio da rua, que manipulam essa percepção. À falta de poder democrático, os comunistas dominam o maior lóbi do país, a função pública, e têm, através desse domínio, impedido qualquer reforma, contribuindo como ninguém para o empobrecimento do país. Os partidos corruptos do centro podem dominar o espaço governativo, mas são eles, os comunistas, que mais influenciam as políticas.
Mas que não se iludam aqueles que pensam que os comunistas tendo tanto a ganhar com o sistema actual, não deitariam tudo a perder em nome da ideologia. Eles são acima de tudo uma seita que acredita nos benefícios da sua ideologia totalitária, apesar de todas as evidências em contrário. Não se deixem iludir pela fachada democrática que assumem durante tempos mais serenos. Eles andam aí, prontos a aproveitar uma crise no sistema para atacar, prontos para utilizar a insatisfação em relação ao sistema que minaram por dentro durante anos para nos imporem a solução final de Cuba ou da Coreia do Norte. Não se iludam aqueles que pensam que bastava esperar que os velhos líderes morressem: há aí uma nova geração de Miguel Tiagos, criada entre as seringas da Festa do Avante, pronta a assaltar o país. É importante não baixar as defesas: o perigo do totalitarismo e escravidão comunistas não desapareceu.

Que Cavaco?

Cavaco

Ninguém parece ter entendido as implicações do discurso de Cavaco Silva de ontem. Mais do que dar respostas, Cavaco Silva deixou muitas perguntas no ar. A verdade é que para saber exactamente o que vai acontecer é preciso perceber que Cavaco falou ontem. Existem quatro possibilidades:

Cavaco Salomão: Cavaco optou por uma solução salomónica, de psicologia inversa. Ao mandatar os partidos a se unirem deixará o ónus da estabilidade governativa neles. É uma solução que faz sentido porque, seja em 2014 ou em 2015, parece certo que o PS voltará ao poder. Qualquer reforma a sério do país não pode ser feita sem o acordo do PS, com o risco de tudo se inverter quando este partido voltar ao poder. Claro que o grande risco aqui é alimentar os partidos de extrema esquerda (o PCP e o BE) que têm já mais de 20% nas sondagens. E, claro, para ser uma verdadeira decisão salomónica, Cavaco teria que ter já um pré-acordo do PS.

Cavaco Laranja: Cavaco não consultou o PS sobre esta solução e tem a consciência que o PS não a aceitará. Depois de o CDS de Portas ter dado um tiro no pé ao criar a crise política, o PS ficará com o ónus de não ter contribuido para a resolver. Passos Coelho sairia da situação como o único estadista que tentou até ao fim manter um governo estável e cumprir com as obrigações internacionais. A possibilidade de o PSD ganhar as próximas eleições, mesmo que antecipadas, passa de nula a possível.

Cavaco Primeiro: Cavaco quer criar a impressão de estar a dar aos partidos uma oportunidade de se entenderem, sabendo à partida que tal não acontecerá. A falta de entendimento entre os partidos justificará depois a introdução de um governo de iniciativa presidencial. A recente entrada em cena de Manuela Ferreira Leite criticando o executivo PSD pode indicar ser ela a escolhida para liderar esse governo. O facto de criticar um executivo liderado pelo PSD coloca-a acima de qualquer suspeita em termos de independência.

Cavaco Histórico: Cavaco quer ser o último presidente da III República.

Uma irrevogável promoção semântica

passosAparentemente, Paulo Portas venceu. Saiu deste episódio como vice primeiro-ministro, número dois do governo com coordenação da área económica, e responsável pela importante reforma do estado. A perda de confiança entre os credores que entretanto causou, sem outro resultado que não a sua promoção pessoal, quase que passa para segundo plano. Mas será mesmo assim? Vamos por pontos. Primeiro, vice-Primeiro-Ministro é um cargo com simbologia política, mas pouco mais. A definição vaga de ser responsável pela coordenação da área económica e diálogo com a troika valerá de pouco se Álvaro Santos Pereira e Maria Luis Albuquerque se mantiverem nos seus cargos. Mesmo que Álvaro Santos Pereira abandone o Ministério da Economia, Paulo Portas, ou Pires de Lima, continuará a ser Ministro da Economia de um governo sem dinheiro. Segundo ponto: deixá-lo responsável pela reforma do estado é uma armadilha política. Este governo foi, até hoje, incapaz de operar qualquer reforma decente no estado. Com o líder do partido minoritário ao leme dessa reforma, ainda menos provável será que tenha sucesso. A diferença é que, agora, esse fahanço terá a cara de Portas. Mesmo que houvesse uma real intenção de reformar o estado por parte de Paulo Portas, essa reforma enfrentaria, inevitavelmente, vários interesses instalados, o que não é o forte de Portas. Portas, mesmo que tenha intenção de reformar o Estado, acabará por recuar com receio de perder votos. Ou seja, a única grande responsabilidade de Portas está, infelizmente, destinada a ser um fracasso. Finalmente, com esta promoção, Portas perdeu o afastamento das decisões mais populares que o seu anterior cargo lhe permitia.

Em teoria Paulo Portas ganhou poder e salvou a face. Na realidade é uma promoção semântica. Portas passou a ser ministro sem pasta, responsável pela área que irá um dia ser vista como o grande falhanço deste governo e, na condição de Vice Primeiro-Ministro, não poderá mais alegar não ter responsabilidade nas suas decisões menos populares. Pelo caminho ainda minou a confiança dos credores e custou ao país umas centenas de milhões de euros em juros a troco de uns efêmeros e aparentes ganhos políticos.

A última contribuição humorística de um ex-ministro de um país descapitalizado

gasparri
“Pela nossa parte exigem a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do cresci…”, não, demasiado óbvio. backspace, backspace, backspace, backspace, backspace, backspace. “Pela nossa parte exigem a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do investimento”. Está melhor, mas algumas pessoas poderão pensar que a frase é a sério. Bem, o melhor é colocar um ponto de exclamação para garantir que ninguém inteligente pensará que estou a falar a sério. “Pela nossa parte exigem a rápida transição para uma nova fase do ajustamente: a fase do investimento!”. Assim, sim.

Resposta ao seu anúncio para coligação governamental

pandeireta

Exmo Senhor Doutor António José Seguro,

Espero que esta missiva o encontre de boa saúde.

O meu nome é Paulo Portas e sou líder do CDS. Penso que me reconhecerá da televisão, embora ande desaparecido nos últimos 2 anos. Fui também líder do partido da lavoura, do partido dos embriões, do partido dos feirantes, do partido da lavoura outra vez, do partido dos contribuintes e, mais recentemente, do partido dos reformados. Ando neste momento em busca de um novo desafio profissional.

Tomei conhecimento desta oportunidade de coligação através do seu anúncio na cantina do parlamento (por falar nisso, o senhor doutor fica muito bem com o bigode que o João Galamba pintou na sua fotografia do anúncio). Ao contrário de outros candidatos, todos nós no partido temos o PS em grande consideração. Temos inclusivamente créditos firmados na sua organização. Como os camaradas Freitas e Basílio comprovam, somos capazes de nos integrar facilmente na cultura do seu partido.

Para além da nossa capacidade de integração, somos também bastante próximos ideologicamente, o que facilitará uma potencial coligação. Nós, como o PS, desejamos mais tempo para pagar a dívida. Nós, como o PS, fomos contra cortes nas reformas. Nós, como o PS, queremos rever os prazos da troika. Nós temos sido a consciência de esquerda deste governo, defendendo no conselho de ministros, o que o PS defende em público. Foram os nossos ministros que travaram a fúria anti-despesista austeritária do ministro Gaspar. Sem nós, teria sido o caos neo-liberal Como vê, a ideologia não será um obstáculo, antes pelo contrário. Mas mesmo que fosse, nós não hesitaríamos em mudá-la. Que fique bem claro: jamais permitirei que a ideologia seja um obstáculo à nossa entrada num governo.

Finalmente, gostaria de realçar a nossa experiência governativa: somos o segundo partido, ex-aequo com o PSD, com mais anos de no governo neste milénio. Apesar do recente sucesso, ainda temos bem presente na nossa memória a década negra de 90 que quase nos destruiu. A fome era tanta que um dos nossos membros chegou a prostituir-se por um queijo. Apelo ao seu bom coração para não nos deixar chegar novamente àquele estado. As nossas famílias já se habituaram a este estilo de vida e será duro regressar aos negros anos da oposição sem cargos governativos. Como sabe, por estes dias, nem um pé de meia se pode juntar enquanto estamos no governo sem que os jornalistas se intrometam (aproveito para agradecer a sua discrição com o caso dos submarinos que, como acordado, retribuiremos).

Segue o meu CV em anexo. Chamo-lhe a atenção para o facto de ser em formato europeu que, desde que descobri, não quero outra coisa.

Do todo seu,

Paulo Portas